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	<title>Globonautas | Globonautas</title>
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		<title>E depois? Vem o “Agora”.</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Apr 2015 21:28:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Histórias da estrada]]></category>
		<category><![CDATA[Alentejo]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[Chegar depois de dois anos e nove meses vividos em movimento, em cima do mundo e em cima de uma bicicleta, não é fácil. Também não é propriamente difícil. ]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><a data-postid="fsg_post_3546" data-imgid="3550" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/IMG_0943.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3550" alt="IMG_0943" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/IMG_0943.jpg" width="800" height="533" /></a></p>
<p>&#8211; E agora?</p>
<p>&#8211; Agora, vêm os “depois”. Depois dos antípodas; depois da viagem; depois da vida vivida em cima de uma bicicleta; depois da vida em constante movimento (embora a vida, claro, seja um movimento constante); depois de quase três anos das nossas vidas&#8230;</p>
<p>Primeiro foi o regresso. Aconteceu tudo tão depressa: a placa a dizer Portugal, as últimas pedaladas por um país que nos pareceu novo do patamar em movimento dos nossos selins; os abraços, as lágrimas, as caras que eram as mesmas, tão familiares e tão carregadas de conforto, e calor, e carinho.</p>
<p>Depois veio a desorientação, o estar ali, mas não estar. O corpo em piloto automático. O não saber como chegar ao “a seguir”.</p>
<p>Dum rascunho para uma actualização no blog, que não acabei, nem publiquei, lê-se:</p>
<p align="JUSTIFY"><em><span style="font-size: medium;">Leiria, Novembro 2014</span></em></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><em><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">Vou por os pés pelas mãos e os bois à frente da carroça: é que entre Mersin, na Turquia, onde deixei as últimas histórias da estrada, e Leiria, onde estamos agora, cabem cinco meses, muitos quilómetros e muitas histórias de intervalo. Mas avanço palavras fora sem contar o que ficou pelo meio porque, quer seja por catarse, quer seja porque há coisas dentro que precisam sair, chegámos há coisa de mês e pouco e sinto que tenho que encerrar o ciclo da escrita, mesmo que a ideia seja recomeçar. E, o ciclo da escrita encerra-se, previsivelmente, escrevendo, que é o que vou fazer, mesmo com as ideias num baralho e os tais pés, metidos pelas mãos&#8230;</span></span></em></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><em><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">Chegar depois de dois anos e nove meses vividos em movimento, em cima do mundo e em cima de uma bicicleta, não é fácil. Também não é propriamente difícil. Mas é estranho, e estranho é a palavra que decidi usar porque não consigo coordenar o que estou a sentir com o que estou a escrever.</span></span></em></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><em><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">Vamos explicando às pessoas, quando nos perguntam “então, esse regresso?” que “ainda não aterrámos”, que “a poeira não assentou”, “que não nos conseguimos habituar ao teto certo sob as nossas cabeças”&#8230; As expressões de estilo e os meios ditados usados como resposta talvez não deixem transparecer que é como se ainda aqui não estivéssemos, como se ainda viéssemos a caminho. Quer dizer, o corpo já cá anda, mas falta o resto. E o resto como se sabe, é o mais importante.</span></span></em></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><em><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">O “agora” preenche-se com coisas que nos parecem abstratas – apresentações e entrevistas. Para que servem? Olhamos com curiosidade o interesse dos outros no que foi a nossa vida nos últimos anos e tentamos encaixar a nova normalidade que é tão diferente da outra – da outra das viagens, da outra do movimento, até da outra em que vivemos entre viagens. Não sabemos muito o bem o que vem a seguir. Os mapas para o futuro já não estão impressos num papel com linhas e distâncias orientadoras. O GPS já não apita quando dobramos a esquina, assinalando que vamos pelo caminho certo. As divagações são outras.</span></span></em></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><em><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">Vago pelas divisões do apartamento do meu irmão, abrindo os caixotes das nossas coisas &#8211; cheiram a bafio e bafio é ao que me cheira o passado que enchemos com estas coisas. São tantas. Pesam. São restos de um outro “eu” que agora está desencaixado do “eu” presente. Para que é que precisava de tanta camisola, calça, casaco, vestidos, botas, sapatos? Não era mais feliz com esta tralha toda do que com a pouca, por comparação, que carreguei em quatro alforges durante quase três anos. Depois dou comigo, paradoxalmente, a sentir um estranho prazer por poder voltar a vestir umas calças de ganga, que eram demasiado pesadas e pouco práticas num universo feito de ciclo deambulações, transformadas de novo na peça de vestuário ideal do quotidiano sem duas rodas, e por ter à minha disposição uma panóplia de coisas para vestir, pela escolha. Há que reinventar o prazer &#8211; no muito e no pouco, digo eu aos meus botões como desculpa de encaixe.</span></span></em></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><em><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">Vago de divisão em divisão com o intuito de ir fazer alguma coisa. A meio caminho esqueço-me do que essa coisa era. 1002 dias sem paredes e as que agora me confinam parecem confinar também a fluidez do meu raciocínio, da minha memória, do meu sentido prático.</span></span></em></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><em><span style="color: #222222;">“<span style="font-size: medium;">Já chegámos” diz o corpo. “Ainda não” responde a cabeça. Acordo de manhã cedo para ir passear a cadela, a Lola, mais conformada com estes dias sem viagens do que nós. Lá do seu alto, o castelo da cidade, Leiria, sobreposto aos edifícios brancos, sublinhado pela luz da manhã dos dias de sol do verão tardio em que se transformou este Outono. Tento abraçar a rotina, para nela conseguir estruturar o que vem pela frente. Tento organizar o tempo. Mas ele escapa e a rotina descoordena-se porque não sei ainda muito bem o que fazer com ela, ou com o tempo que a circunscreve. Não sei muito bem o que fazer com o futuro porque o futuro feito de um regresso a Londres, de vida rotineira subjugada a horários e ao espartilho das necessidades impostas pelos outros, realmente não encaixa de momento (embora, eventualmente, não se venha a tratar de um encaixe se não de uma necessidade).</span></span></em></p>
<p lang="pt-PT" align="JUSTIFY"><em><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">Valem-nos os faróis das nossas vidas: as nossa famílias. Sem perguntas, sem cobranças. Não creio que as pudéssemos suportar nesta altura (certamente o intuem).O seu apoio, a sua generosidade, a sua paciência, a sua aceitação da nossa maneira de estar na vida &#8211; pouco dada a convenções. O estarem lá para nós. O serem quem são: parte da nossa vida, do nosso ADN&#8230;</span></span></em></p>
<p lang="pt-PT" align="CENTER">&#8230;&#8230;&#8230;</p>
<p lang="pt-PT" align="CENTER"><a data-postid="fsg_post_3546" data-imgid="3548" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/Alentejo-imagens.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3548" alt="Alentejo imagens" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/Alentejo-imagens.jpg" width="800" height="473" /></a></p>
<p><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">Depois veio a vinda para o Alentejo. <i>Um intervalo. </i><em>Só até o livro da viagem estar escrito</em> &#8211; dissemos a nós e dissemos aos outros. Mas um livro não se escreve em três ou quatro meses, pois não? Ou melhor, até se pode escrever se não houver vontade, ou necessidade, de lá deixar a alma, ou se quem o escreve é escritor com tudo na ponta da caneta. A mim ainda me falta ler muito e escrever ainda mais para poder emprestar o título.</span></span></p>
<p>O<span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;"> regresso para Londres vai sendo adiado. Já só voltaremos a pensar nisso no final do verão, se a sorte e as circunstâncias continuarem do nosso lado. Até lá, a vida vai acontecendo por aqui.</span></span></p>
<p><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">O Alentejo foi um feliz acaso. Uma casa, que agora é do meu pai, transformada em casa de férias, casa de fugas, e casa intervalo &#8211; que é o que ela é agora para nós.</span></span></p>
<p><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">Não é uma casa qualquer. </span></span></p>
<p><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">Chamamos-lhe o “monte” porque é o que se chamam às casas por aqui. Às casas perdidas nesta amplitude, no meio dos sobreiros, das oliveiras, das azinheiras&#8230; Mas não é um monte. Não reside soberana no cimo de um. Ao invés, já quase perto do fundo de um pequeno vale, no qual escorre um ribeiro que se some bem começando o verão, que aqui vem bem mais cedo, dizem os vizinhos. Nem tão pouco estamos isolados, que há vizinhos mesmo aqui ao lado, e vivemos, afinal, nas franjas de um pequeno e lúgubre lugarejo que nem vem no mapa (será que existe?).</span></span></p>
<p><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">O acaso é feliz pela conciliação do passado.</span></span></p>
<p><a data-postid="fsg_post_3546" data-imgid="3554" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/P1360193.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3554" alt="P1360193" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/P1360193.jpg" width="800" height="534" /></a></p>
<p><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">Teria eu uns dez, doze anos, quando os meus tios, ainda vivos, compraram este “monte”. Na mente de quem aqui passou os verões e umas quantas Pascoas da infância e da adolescência, o sítio era mágico. Manancial de brincadeiras, fugas, cantos e espaço que, no entanto, se viam reduzidos sob a força esmagadora do calor que nos tirava a vontade de fazer o que quer que fosse, incluindo ajudar a minha tia Carmita ou a minha avó Maria nas tarefas da casa, que hoje, até me dão alguma satisfação (um acertar de contas torcido, que o tempo também tem os seus desígnios). As paredes grossas e as janelas pequeninas eram a muralha de uma fortaleza que combatia o inimigo lancinante à espera para atacar lá fora: o calor indomável. Mas cá dentro, os discos do meu tio Gil e do meu primo Zé-Zé ouviam-se vezes sem conta, criando um outro mundo sonoro, que ainda cá parece ecoar, embora os discos já aqui não estejam. Nat King Cole, <i>“quiçá&#8230;quiçá</i>”, cantava a voz rebuçado, do homem negro da capa do disco, tão penteado e tão meigo, na sua forma macia de pronunciar o espanhol. E a Suzanne Vega, <i>“my name is Luca, I live on the second flor”</i>, letra pungente que não entendia, sobre uma criança que vivia no segundo andar e era abusada, deixando-me apenas embalar sem mais pensamentos, na melodia fácil e melancólica. Mas o mais repetido terá sido os Mingos e Samurais do Rui Veloso e o Carlos Té. Sabia-o de trás para a frente, tocado e cantado até à exaustão&#8230;&#8221;<i>ó Zira, o que é que fizeste ao olhar, tinhas um azul safira Zira, não era preciso pintar&#8230;&#8221;. (ter sabido</i> o que são os <i>blues</i> por alguém que os tocava e cantava em Português é uma coisa tão ao  contrário como ficar alegre quando os ouvia). Bem se diz que as crianças são como esponjas, naquela altura não havia esquisitices, agora chamo-lhe o sentido ecléctico de garota, no mundo sonoro desse então, povoado com cassetes e cds, a alquimia do som picotado, o fascínio do disco negro onde não se podiam por os dedos ou as mãos, o ritual quase solene, o cuidado para não riscar o disco, a agulha que se baixava devagarinho&#8230;</span></span></p>
<p><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">Depois da morte dos meus tios, há já alguns anos, nunca pensei regressar. Dei o monte como perdido. Há coisas na vida que temos que deixar ir. O “monte” passou ao armário onde arrumei memórias de criança repletas de imagens saudosas dos meus tios e dos momentos felizes que me proporcionaram. O Alentejo, já não era mais meu.</span></span></p>
<p><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">Mas o regresso, percebo agora, foram dois: o regresso a casa dos Antípodas e o regresso ao monte do Alentejo, ao Monte das Casas Novas.</span></span></p>
<p><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">O nosso “agora” é este: Alentejo. Preenchido pelos dias passados à frente do computador &#8211; umas vezes com mais inspiração do que outras. Sentindo as folhas brancas no meu ecran enchendo ao ritmo marcado pelas batalhas do ego, pelo gosto ou (des)gosto, pela coordenação, ou falta dela, do que há para contar, da escolha das relevâncias, da capacidade de o fazer por escrito. Uma viagem em modo “replay” que faço nas recordações e reinterpretações do que foram os últimos três anos e do que tenho sido nos últimos 36. E é bom viver a vida assim, a sentir que há algo que merece ficar escrito.</span></span></p>
<p><a data-postid="fsg_post_3546" data-imgid="3558" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/writing-collage-2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3558" alt="writing collage 2" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/writing-collage-2.jpg" width="800" height="473" /></a></p>
<p><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">É um “agora” que durará enquanto consigamos viver dos rendimentos limitados, mas suficientes, que o apartamento de Londres nos vai proporcionando, pelo menos até que o livro veja outros olhos e outros meios que não o ecran do meu computador. É um “agora” até que se possibilitem novas viagens. E é um “agora” até existir vontade de que assim permaneça.</span></span></p>
<p><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">Na qualidade provisória deste “agora”, aproveitamos o tempo que ainda nos damos ao luxo de viver a um ritmo que nos parece certo e comandado por nós. Se é esta a vida que queremos, uma vida mais distante das urbanidades? Vai parecendo que sim, por ser o seguimento lógico do que vivemos nas nossas viagens. E, pelo caminho (por este caminho), aproveitamos a boleia para realizar um velho sonho do Nuno, quase tão velho como o sonho de viajar que é sonho de viver da terra. Também se vive da terra a viajar, mas este é um viver mais visceral, é um entender a terra&#8230;Aqui, no monte que não é monte, tem sido o lugar ideal para o fazer. Há terra baldia que há muito não vê mãos que a cuidem e o Nuno viu nela a horta que agora lá cresce. Agarrou-se à enxada, à pá, à foice como se fossem a sua nova bicicleta, o seu novo meio de transporte, e vai plantando, semeando, regando, cuidando. E as coisas respondem com a linguagem do verde, ganham raízes, crescem, enchem-se de esperança e alimento. E é como se o Nuno ganhasse também raízes e esperança nascida do alento de mais um sonho que se quantifica, ganha matéria e nos alimenta.</span></span></p>
<p><a data-postid="fsg_post_3546" data-imgid="3557" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/quinta-mix.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3557" alt="quinta mix" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/quinta-mix.jpg" width="800" height="552" /></a></p>
<p><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">A família e os amigos vão aparecendo também. Aqui, finalmente, fazemos uma viagem mais fácil de acompanhar. Se este “agora” é mais ausente em movimentos geográficos, não é menos feliz ou mais estático por assim ser e esta é uma viagem que facilmente compartimos.</span></span></p>
<p><a data-postid="fsg_post_3546" data-imgid="3553" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/P1360139.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3553" alt="P1360139" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/P1360139.jpg" width="800" height="533" /></a></p>
<p><span style="color: #222222;"><span style="font-size: medium;">As viagens não nos largam &#8211; dificilmente largarão. Víamos um filme noutro dia, <i>Samsara</i>, que evocava as paisagens dos Himalaias, as montanhas, que aqui não existem, a grandeza do cinzento granítico, do silêncio da neve. Que vontade tivemos de estar ali, de sentir a incerteza de cada dia em cima das bicicletas &#8211; a aventura do movimento. Mas aqui também há espaço, e dimensão, e movimento. É diferente, mas tudo o é. E há o coaxar das rãs ao final do dia, o “cucurucu” do casal de corujas que à noite sobrevoam o nosso telhado, os pássaros em sinfonias, pontilhando os dias, os galos com os seus cacarejos imperativos nas manhãs. As colinas e as flores. As cores vivas que delas emanam, agora que a Primavera se agarrou à terra e às coisas.</span></span></p>
<p><span style="color: #222222;">“<span style="font-size: medium;">Agora” é um intervalo. Um intervalo que saboreamos no seu aroma quente e confortável. O “depois” virá (como sempre vem), não sabemos em que forma, nem quando. Com outras viagens? &#8211; Certamente, pois o mapa preso à parede e o mapa preso dentro da nossa cabeça expande (e não o oposto), à medida que lhe calcorreamos as fronteiras, os desafios, as estradas, as pessoas &#8230;a eterna sereia. Até lá. Até essas outras viagens, cabe-me terminar a viagem que comecei em bicicleta e que pretendo encerrar com uma caneta (prosaicamente falando): a escrita do livro. E depois? Depois é um vórtice de incertezas, dentro do qual se encontram as possibilidades de tudo o que ainda está por acontecer nas nossas vidas.</span></span></p>
<p><a data-postid="fsg_post_3546" data-imgid="3556" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/P1360229.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3556" alt="P1360229" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2015/04/P1360229.jpg" width="800" height="534" /></a></p>
<p>Joana</p>
<p>Alentejo, Monte das Casas Novas</p>
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		<title>Itinerário geral da viagem</title>
		<link>http://globonautas.net/itinerario-geral-ate-ao-momento/</link>
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		<pubDate>Fri, 12 Dec 2014 08:04:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[A matemática da viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[Neste mapa mostramos o nosso itinerário efetuado.
Chegámos finalmente a casa (Leiria) depois de percorrer 29.058 kms de bicicleta, visitando 32 países em 1002 dias de viagem.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Neste mapa mostramos o nosso itinerário geral da viagem. Terminámos a viagem em <strong>Leiria</strong> no dia 5 de outubro de 2014<strong>, </strong>depois de percorrer <strong>29.058 kms</strong>,<strong> 32 </strong><b>países</b> em <strong>1002 dias</strong> de viagem</p>
<p><iframe src="http://www.tripline.net/map?tripId=565705470700100790C0E688802A1053&amp;onSite=0" height="488" width="712" allowfullscreen="" frameborder="0"></iframe></p>
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		<title>Itinerário em Portugal</title>
		<link>http://globonautas.net/itinerario-em-portugal/</link>
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		<pubDate>Thu, 11 Dec 2014 11:18:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[A matemática da viagem]]></category>
		<category><![CDATA[Portugal]]></category>

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		<description><![CDATA[De 21 de setembro a 5 de outubro de 2014
627 kms pedalados]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Data de entrada: 21 de setembro 2014</strong></p>
<h2>Estatísticas</h2>
<p>Total dias: 15<br />
Dias de ciclismo: 14<br />
Dias descanso: 1<br />
Kms pedalados: 627<br />
Horas pedaladas: 53h.05m<br />
Km/dia (med): 44.7<br />
Altitude máxima: 1995m<br />
Desnível acomulado: 10.281m<br />
Altitude/dia (med): 734<br />
Noites em hoteis: 1<br />
Noites campismo : 10<br />
Noites com particulares: 4<br />
Custos/noite (med p/p): € 3.66<br />
Custos totais diarios (p/p): € 0.97<br />
Furos: Joana 0 Nuno 0</p>
<div class="hr"></div>
<p>D988 Acampados junto ao rio Sabor – 53.6 km<br />
D989 Acampados depois de Milhao- 30 kms<br />
D990 P.C. Municipal de Vimioso – 36.1 kms<br />
D991 Descanso, Vimioso<br />
D992 Algures entre IC5 e EN221 – 56.9 kms<br />
D993 Acampados depois de Lagoaça – 58 kms<br />
D994 Acampados depois de Barca D´Alva – 49.6 kms<br />
D995 Casa do Mané e Ana, Guarda- 73.6 kms<br />
D996 Inatel Fundaçao, Manteigas – 73.6 kms<br />
D997 Parque campismo Sao Giao – 44.2 kms<br />
D998 P.C. Municipal de Arganil – 40.3 kms<br />
D999 Acampados antes de Povorais – 32.5 kms<br />
D1000 Casa do Pedro, Ferraria de Sao Joao – 41.9 kms<br />
D1001 CHEGÁMOS A CASA, Monte-Redondo – 68.8 kms<br />
D1002 Casa da Joana, Leiria – 22.2 kms</p>
<p><strong>1002 dias, 29.058 kms e 32 países&#8230;Esta viagem chegou ao fim!</strong></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Turquia&#8230;o mar finalmente, depois dos castelos e das searas perdidas</title>
		<link>http://globonautas.net/turquia-o-mar-finalmente-depois-dos-castelos-e-das-searas-perdidas/</link>
		<comments>http://globonautas.net/turquia-o-mar-finalmente-depois-dos-castelos-e-das-searas-perdidas/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 25 Sep 2014 08:03:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Histórias da estrada]]></category>
		<category><![CDATA[Turquia]]></category>

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		<description><![CDATA[Primeiro vieram os furos – dois. E havia já uns problemazitos de menor monta que o Nuno andava a ignorar (à boa maneira dele)- se a pobre “burra” com o aro da frente meio rachado  e a pedaleira no “salta-salta”  anda, para quê gastar dinheiro com reparações?]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<h2><b>O sorriso</b></h2>
<p><a data-postid="fsg_post_3287" data-imgid="3292" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/P1290617.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3292" alt="P1290617" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/P1290617.jpg" width="800" height="424" /></a></p>
<p>Poucas coisas são mais bonitas do que um sorriso.  O sorriso é como uma tatuagem. Quem o criva ao rosto acaba com o corpo marcado pela força da linha que deixa nos lábios. Contagia o olhar como se o brilho que lhe causa auxiliasse a combustão das estrelas. Aligeira o ser, como se fosse feito de essências imateriais e não de carne e osso. Um sorriso é como um par de braços abertos &#8211; para a vida e para os outros.</p>
<p>Assim é Nuzhet. E assim é o seu sorriso.</p>
<p>Chegámos a sua casa com vistas para o oceano azul de Mersin às 5.35 da tarde num dia ventoso de Abril. Um dos seus estudantes, Mesut,  veio esperar-nos a uma intersecção para que encontrássemos o caminho junto ao mar ao longo do paredão. Fomos distraídos na conversa e o mar ali ao lado &#8211; que não víamos há quase um ano &#8211; teve que  esperar.</p>
<p>O cabelo curto cortado à rapaz, contornava a nuca de Nuzhet com linhas quase brancas. No dia em que nos abriu as portas da sua casa vestia umas calças <em>pantalonas</em> elegantes com um top branco justo. Era um conjunto que lhe alongava o corpo pequeno. No pescoço esguio, um colar em forma de espiral, onde parecia confluir alguma energia secreta do mundo&#8230; e o sorriso, tão aberto e tão sincero que cabia lá dentro a sensação de estarmos com alguém que conhecíamos há muito.</p>
<p>O apartamento grande e espaçoso fez-se nosso. Banho tomado e roupa a lavar, foi tempo de nos familiarizarmos ao sabor de um copo frutado de vinho branco e preparar a janta a várias mãos.</p>
<p>Nuzhet tinha 50 anos. 50 anos de muitas histórias – alicerces da vida interessante que era a sua. Filha de pai turco e mãe alemã, o seu ser estava dividido entre o sentido prático e determinado germânico e o calor e afabilidade das gentes turcas. Casou nova, mas, depois de ter a filha – Deniz, decidiu continuar os estudos e fazer carreira académica. O então marido, aos comandos da mãe advogada a exercer, queria que se tornasse &#8211;  ironicamente, numa dona de casa passiva. Nunca aconteceu. Nuzhet continuou a sua carreira académica e o divórcio foi inevitável.</p>
<h2><b>Nuzhet&#8230;mulher grande</b></h2>
<p>O pé e a vida fincou-os bem(e finca ainda) nas coisas em que acredita e que quer. Chegou ao que é hoje – responsável pelo departamento de Engenharia Alimentar da Universidade de Mersin à custa de muita teimosia, determinação  e de não se deixar intimidar no mundo machista que é o nosso e, no seu caso particular, o académico turco.</p>
<p>Já fez casa do Quirguistão,  aproveitando uma oferta de emprego numa universidade deste país da Ásia Central. Com o dinheiro que lá juntou e a vida simples que lá fazia, pode pagar os estudos universitários à filha. Por lá se deixou apaixonar pela vida ao ar livre e pelas viagens por sítios remotos como a China, mesmo ali ao lado.</p>
<p>É mulher dos mil projectos. À sua volta tudo resulta em algo, como se não houvesse desperdício de energia humana. Em Mersin, criou um clube de ciclismo na universidade. Os membros são sobretudo  homens, que a seguem como cordeiros nas actividades e encontros que coordena. Mais uns tantos projectos relacionados com as comunidades nas montanhas locais, e outros tantos na área da sensibilização ambiental –área por explorar no contexto do país. As suas horas livres não são muitas, mas as que são, ficam preenchidas na leitura, na preparação de novas aventuras e em passeios de bicicleta.</p>
<p>A nós incumbiu-nos uma apresentação ao núcleo de ciclistas e aspirantes da universidade. Deu-nos uma manhã de aviso. Muita correria e <em>power-point</em> enferrujado, improvisámos o que pudemos&#8230;Com o alívio da apresentação findada, vieram as perguntas e os sorrisos, entre os soluços da tradução do inglês para o turco feita pela Nuzhet – ficou a sensação que dentro das limitações, a apresentação tinha corrido bem.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_3287" data-imgid="3300" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/P1290567.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3300" alt="P1290567" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/P1290567.jpg" width="800" height="560" /></a></p>
<p>No jantar lanche à beira-mar que Nuzhet nos quis oferecer &#8211; uma <em>mezze,</em> tão variada como deliciosa, de <em>humus,</em> quentes e frios, pastas de beringela e, guizados suculentos de carnes tenras e bem condimentadas que barrámos em pães caseiros &#8211; estaladiços na côdea e macios no interior. Para rematar um momento que prescindia de melhores remates, as <em>baclavas</em> recheadas com pistáchio, uma espécie queijo doce derretido em fios, também com pistáchio triturado e, um licorzinho local com sabor a anis – lá manda a tradição. Passámos um final de dia à beira mar que apreciámos com o dobrar dos segundos e com a companhia, vendo o sol a afundar mar adentro, levando consigo a luz do dia e trazendo o lembrete das horas bem passadas.</p>
<p>Deixámos Nuzhet e o conforto do seu apartamento na manhã seguinte. Íamos acompanhar a linha azul que o mar mediterrâneo desenhava, separando-o dos vales e montes que se faziam terra. Ao avançar sobre o piso cinzento do alcatrão que nos levaria ao longo daquele mar, remanescemos os últimos dias que nos tinham levado até lá. Os últimos dias de terras de searas e castelos perdidos  no centro da grande Anatólia&#8230;</p>
<h2><b>E quase tudo o vento levava</b></h2>
<p><a data-postid="fsg_post_3287" data-imgid="3294" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/P1290139.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3294" alt="P1290139" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/P1290139.jpg" width="800" height="533" /></a></p>
<p>Quando deixámos o nosso acampamento nas margens do Eufrates as pedaladas continuaram pela primavera que se sentia.  Seguimos na direcção das flores que salpicavam os campos de cor; em direcção  do calor ameno dos dias; em direcção do chilrear dos pássaros e dos seus voos nervosos de ramo em ramo. Para estes deambulares não é necessário calendário. As estações vêem quando têm de vir, as suas marcas não obedecem ao quadriculado numérico de um papel que o homem pendura na parede para se governar. E, com as nossas pedaladas e esta  nossa vida nómada,  vai acontecendo o mesmo.</p>
<p>Ao deixarmos  os vales por entre os quais o Eufrates se contorcia, fomos dar a planícies onde o vento deambulava de forma livre, sem nunca nos auxiliar as pedaladas. Acabámos o dia, já sem sol (parecia ele também afastado para o outro hemisfério pelas rajadas) à porta de uma pequena aldeia que não vinha no mapa.  Já sem forças para buscar um sítio abrigado do vento, ou longe das vistas, improvisámos assento na beira da estrada, entre duas árvores  noduloso de ramadas longas que desfraldavam aos ventos. Mentes mais visadas olhariam às ramas portentes no cimo das nossas cabeças e às probabilidades de uma queda certeira, mas o nosso sentido de urgência não nos deu para tanto. A noite foi passada com despertares violentos, onde nos víamos obrigados a agarrar a membrana frágil  de material de <em>polyurestano</em> &#8211; a nossa tenda,  a única barreira entre nós e o vendaval enraivecido que  nos abanava os alicerces da casa e do descanso.</p>
<p>Na manhã seguinte fizemos espera dentro da tenda  por um vento ido. Mas o vento não se foi e sem coragem de o enfrentar passámos mais um dia enclausurados no nosso <em>cocoon</em> verde, sem muito mais do que fazer que ouvir os galos roucos da aldeia, as sombras do rendilhado móvel das ramas das árvores, o balido de uma ovelha na distância e a tenda a contorcer-se como se uma dor de barriga forte lhe estivesse a tomar conta das entranhas.</p>
<p>Ao segundo dia: tenda imóvel. O sol apartou as nuvens e, as ramas em cima das nossas cabeças, que não chegaram a cair, formavam um recorte verde, estático e sereno. Seguimos montanha acima, para depois a voltarmos a descer numa outra encosta qualquer. O dia feito silêncio. Nem uma brisa como recordação dos últimos dias passados no sopro do vendaval.</p>
<h2><b>Hierapólis e Anavarza – As “nossas” ruínas abandonadas</b></h2>
<p><a data-postid="fsg_post_3287" data-imgid="3293" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/P12901901.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3293" alt="P1290190" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/P12901901.jpg" width="800" height="533" /></a></p>
<p>Os pinheiros, em qualquer parte do mundo, transportam-me até à mata da minha terra – Leiria, terra de mar e pinhais. No écran da minha memória  chegam,  como um programa pré-formatado, imagens dos meus primeiros acampamentos em família, embalada pelo som suave  das ramas ao vento. O tecto verde agulhoso.O cheiro amarelo da resina. Os troncos longos e esguios que convergem no intervalo que o verde das ramas deixa, quando parece que o azul do céu é o único travão ao seu crescimento.</p>
<p>Não pudemos montar acampamento nas ruínas perdidas de Hierapólis,  mas o pinhal a pouca distância, com o seu chão de caruma seca que acobertava o chão arenoso, escondeu-nos e abrigou-nos o acampamento da noite. Na manhã seguinte regressámos às ruínas romanas semi por escavar, semi por preservar, semi esquecidas. Seguimos pela estrada romana de pedra desalinhada onde cresciam papoilas no intervalo das uniões. O que restava era um conglomerado abstracto de monumentos desmembrados. Um anfiteatro com cenário de searas e oliveiras onde os actores eram os pássaros e as cigarras. No alto, um castelo desmoronado, palco de guerras e fugas, no topo de um rochedo que os cruzados, na sua campanha do medo rumo a terras de Jerusalém, deixaram.  E uma tartaruga pequena, lá no alto também, na sua cruzada pela sobrevivência.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_3287" data-imgid="3299" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/Fotor092581744.jpg"><img class="alignnone  wp-image-3299" alt="Fotor092581744" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/Fotor092581744.jpg" width="800" /></a></p>
<p>Os dias foram passando, divididos apenas  pelas estradas incógnitas que trilhavam o centro Este do país e que percorríamos em busca de pedaladas tranquilas e da Turquia que não vinha nos guias. Por obra destes desvios fomos dar a mais um castelo solitário, feito lego desmoronado por uma criança rabugenta, deixado à beira de um precipício, à espera do dia trágico da queda final. Nos seus flancos a Este, jaziam as ruínas de uma cidade romana cujos os restos mais artísticos como campas talhadas, alguma ninfa esculpida, um ou outro painel de mosaicos, serviam de enfeite às casas das gentes da aldeia.</p>
<p>Subimos até ao castelo, suando o esforço no dia quente que se sentia. Por ali andámos perdidos no dia de sol e de ruínas esfareladas. Sem muitos quilómetros para assinalar o final do dia, decidimos ao descer do castelo fantasma, montar acampamento nas ruínas da cidade romana abandonada – Anavarza. Se ali era poiso de rebanhos, também o seria de ciclovagabundos,  pelo menos para a noite. E foi uma noite clara de estrelas e luar grande. O amanhecer envolveu-nos no centro do rebanho que regressou ao pasto dando-nes miradas surpreendidas para dentro da tenda antes de seguirem pela cidade ruína levando com elas o som descoordenado da sinfonia dos sinos pendurados no seus pescoços de lã.</p>
<h2>Adana &#8211; a bicicleta do Nuno diz que &#8220;não&#8221;</h2>
<p><a data-postid="fsg_post_3287" data-imgid="3297" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/Fotor092582614.jpg"><img class="alignnone  wp-image-3297" alt="Fotor092582614" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/Fotor092582614.jpg" width="800" /></a></p>
<p>Quando deixámos Anavarza seguimos em direcção a Adana decididos a não passar na grande cidade, tão animados que íamos com as nossas estradas esquecidas.</p>
<p>A bicicleta do Nuno tinha outros planos.</p>
<p>Primeiro vieram os furos – dois. E havia já uns problemazitos de menor monta que o Nuno andava a ignorar (à boa maneira dele)- se a pobre “burra” com o aro da frente meio rachado  e a pedaleira no “salta-salta”  anda, para quê gastar dinheiro com reparações?</p>
<p>O craque foi redutor. O que quer que tivesse acontecido foi grave porque a burra não avançou. Numa subida mais acentuada o desviador enfiou-se raio dentro e partiu-se. O Nuno improvisou o arranjo possível – desmontou o desviador, encurtou a corrente e seguiu em <em>single speed</em>, sobe e desce fora. Afinal sempre teríamos que ir a Adana, e a Adana chegámos embrenhados pelo manto escuro da noite.</p>
<p>A manhã seguinte foi de arranjos. Na loja de bicicletas onde fomos arranjar a bike &#8211;  conhecemos Karahan, ciclista nos tempos livres. Queria que ficássemos em sua casa mas como já tínhamos pago a noite na pensão onde estávamos, tivemos que recusar. O jantar  com a mulher e o filho,  não podemos recusar e, fomos mais uma vez deliciar-nos com as iguarias culinárias turcas, que de outra forma estariam fora do alcance das nossas bolsas e, por consequência, das nossas papilas gustativas.</p>
<p>Arranjos feitos e bicicleta pronta a rolar, fizemos os 40 quilómetros até Tarsus &#8211; a terra onde São Paulo nasceu. Em Tarsus fomos recebidos pelo Mustafa e a sua mãe, que nos prepararam um banquete digno de reis. As breves pedaladas seguintes foram embaladas pelo vento, que, como de costume, nos dificultou as pedaladas. Chegámos a Mersin ao início da tarde.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_3287" data-imgid="3298" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/Fotor092581471.jpg"><img class="alignnone  wp-image-3298" alt="Fotor09258147" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/09/Fotor092581471.jpg" width="800" /></a></p>
<p>Dois dias depois chegávamos a casa de Nuzhet e seguiríamos com a linha do Mediterrâneo a guiar-nos as pedaladas.</p>
<p>As próxima histórias serão dos encontros inesperados com um caminhante Português e, dos esperados, com uma amiga de longa data, a Stephanie e a Nela, a nossa companheira de viagens mais assídua.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Itinerário em Espanha</title>
		<link>http://globonautas.net/itinerario-em-espanha/</link>
		<comments>http://globonautas.net/itinerario-em-espanha/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 09 Sep 2014 12:54:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[A matemática da viagem]]></category>
		<category><![CDATA[Espanha]]></category>

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		<description><![CDATA[De 4 de setembro a 20 de setembro de 2014
681 kms pedalados]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Data de entrada: 4 setembro de 2014</strong></p>
<h2><strong></strong><br />
Estatísticas</h2>
<p>Total dias: 16<br />
Dias de ciclismo: 14<br />
Dias descanso: 2<br />
Kms pedalados: 681<br />
Horas pedaladas: 60h 13m<br />
Km/dia (med): 49<br />
Altitude máxima: 1221m<br />
Desnível acomulado: 8005m<br />
Altitude/dia (med): 571m<br />
Noites em hoteis: 0<br />
Noites campismo : 13<br />
Noites com particulares: 3<br />
Custos/noite (med p/p): € Zero!<br />
Custos totais diarios (p/p): € 6.90<br />
Furos: Joana 1 Nuno 1</p>
<div class="hr"></div>
<p>D971 Casa do Miguel, Irun – 69.8 kms (entrada em Espanha)<br />
D972 Acampados ao lado de igreja, Irio – 42 kms<br />
D973 Algures antes de Lekeitio – 57.5 kms<br />
D974 Reserva Natural de Urdaibai, antes de Bermeo – 45.6 kms<br />
D975 acampados num bosque depois de Bakio – 34.7 kms<br />
D976 Casa do Jacoba, Bilbao – 36.8 kms<br />
D977 e D978 Descanso, Bilbao<br />
D979 Embalse de Odunte – 50.7 kms<br />
D980 Acampados depois de Bercedo – 25.2 kms<br />
D981 Acampados depois de entreambosrios . 31.1 kms<br />
D982 Reinosa – 67.8 kms<br />
D983 Acampdos depois de Aguilar del campoo &#8211; 44.1 kms<br />
D984 Junto a linha de comboio depois de Guardo – 58.1 kms<br />
D985 Acampados depois de mansilla de las Mulas – 68.3 kms<br />
D986 Acampados depois de Baneza – 59.1 kms<br />
D987 Ao lado do parque de campismo de Bragança – 60.4 kms</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Itinerário na França</title>
		<link>http://globonautas.net/itinerario-na-franca/</link>
		<comments>http://globonautas.net/itinerario-na-franca/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 08 Sep 2014 19:38:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[A matemática da viagem]]></category>
		<category><![CDATA[França]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://globonautas.net/?p=3240</guid>
		<description><![CDATA[De 6 de agosto a 4 de setembro de 2014
1392 kms pedalados]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Data de entrada: 6 de agosto de 2014</strong></p>
<h2>Estatísticas</h2>
<p>Total dias: 30<br />
Dias de ciclismo: 21<br />
Dias descanso: 9<br />
Kms pedalados: 1392<br />
Horas pedaladas: 104h 32m<br />
Km/dia (med): 66<br />
Altitude máxima: 1201m<br />
Desnível acomulado: 11.388m<br />
Altitude/dia (med): 542m<br />
Noites em hoteis: 0<br />
Noites campismo : 21<br />
Noites com particulares: 9<br />
Custos/noite (med p/p): € 1.40<br />
Custos totais diarios (p/p): € 6.80<br />
Furos: 0</p>
<div class="hr"></div>
<p>D942 Acampados depois de Champagnole – 70.3 kms<br />
D943 Junto a um rio depois de Louhans – 80.6 kms<br />
D944 Camping municipal de Tournus – 26.1 kms<br />
D945 Garagem agricóla antes de Charolles – 56.7 kms<br />
D946 Casa da Danielle e do Joel, Saint Alban Les Eaux – 80.5 kms<br />
D947 Descanso, Saint Alban Les Eaux<br />
D948 Depois de Saint-Dier d´Auvergne – 79.7 kms<br />
D949 Junto á estrada depois de Saurier – 57.1kms<br />
D950 Acampados junto a barragem perto de singles – 62.6 kms<br />
D951 Acampados depois de Meymac – 51.2 kms<br />
D952 Camping municipal de Saint-Leónard de Noblat – 68.2 kms<br />
D953 e D954 Descanso, Saint-Leónard de Noblat<br />
D955 Acampamento das lesmas, depois de St Maurice de Lions . 84.2 kms<br />
D956 Area de picnic, antes de Matha – 77.7 kms<br />
D957 Casa da Isabel e Wallid, St Just Luzac – 74.9 kms<br />
D958 ao D962 descanso, St Just Luzac<br />
D963 Acampados num pihal, depois de Amelie – 76.8 kms<br />
D964 Algures num pinhal, depois de Lacanau Océan – 78.1 kms<br />
D965 Camping Le Marache, Biganos – 59.6 kms<br />
D966 Descanso, Biganos<br />
D967 Acampados antes de Biscarrosse – 67.5 kms<br />
D968 Antes de Contis plage – 60 kms<br />
D969 Acampados de pois de Vieux Boucau Les Bains – 67.3 kms<br />
D970 Junto a canal depois de Labenne Océan – 39.7 kms<br />
D971 Casa do Muguel, Irun (Entrada em Espanha)</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Turquia  – no ventre das civilizações, o passado e o presente</title>
		<link>http://globonautas.net/turquia-no-ventre-das-civilizacoes-o-passado-e-o-presente/</link>
		<comments>http://globonautas.net/turquia-no-ventre-das-civilizacoes-o-passado-e-o-presente/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 17 Aug 2014 17:53:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Histórias da estrada]]></category>
		<category><![CDATA[Turquia]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://globonautas.net/?p=3210</guid>
		<description><![CDATA[A alma forrada a vermelho carmim das papoilas à nossa volta, o som dos xilofones descoordenados que eram os sinos das ovelhas na outra margem. A vertigem do precipício onde montámos a tenda...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<h2>Mardin &#8211; a cidade e o tempo</h2>
<p><a data-postid="fsg_post_3210" data-imgid="3214" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6626.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3214" alt="IMG_6626" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6626.jpg" width="800" height="533" /></a></p>
<p>As pedras das ruas estreitas terminavam no branco acinzentado da neblina, como se as casas que formavam estivessem por completar. Os ecos dos passos furtivos dos poucos pés que se atreviam naquela paisagem incompleta, materializavam-se em formas humanas para logo voltar a desaparecer &#8211; projecções holográficas, imateriais &#8211; apenas significantes no contexto do imaginário. Chegámos a Mardin no final do dia e as últimas horas de luz foram perdidas a tentar encontrar sítio barato onde passar a noite.</p>
<p>Na manhã seguinte, debaixo do tecto sobre as nossas cabeças e, sobre as camas estreitas do quarto mais barato que encontrámos na cidade, esperámos que as mil águas do mar ao contrário em que o céu se tinha tornado, vertessem. Com o ribombar de dois ou três trovões, espremeram-se as últimas gotas e ficaram as nuvens e o silêncio do céu, agora desanuviado.</p>
<p>Saímos pelas ruas molhadas em busca da cidade que desaparecia e reaparecia no bailar das nuvens que a coroavam, no alto do monte orgulhoso onde estava empoleirada. Aos seus pés, as planícies da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, estendidas sem que a vista lhes alcançasse o fim; manancial milenar, fruto dos dias em que o homem  desafiou a ordem  da vida deambulante e recolectora. Algures ali, naquelas planícies estendidas, se atiraram as primeiras sementes à terra  – porventura, o acontecimento mais transformador da humanidade&#8230; e ali, se desenhou um novo rumo na história  – a história que se conta, como uma árvore que bifurca, das gentes  que deixaram de ser itinerantes e que no excesso alimentar que produziram, fizeram nascer civilizações,  impérios, religiões – a hierarquia, a burocracia, a ordem criada por quem fica, contra a liberdade, a incerteza e a ligeireza de quem itinera.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_3210" data-imgid="3215" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6653.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3215" alt="IMG_6653" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6653.jpg" width="760" height="506" /></a></p>
<p>Subimos e descemos escadarias. Perdemo-nos nas vielas e nos becos sem saída daquela cidade de pedra. Tal como na vida, às vezes é bom andar perdido para sentir a intensidade do encontro.</p>
<p>Mardin e as cidades que visitámos no leste da Turquia, como Mydiat, Urfa, até a pequena vila de Savur são  fénix que renasceram das cinzas.  Há poucos anos reinava o caos e a incerteza – o legado que a guerra deixa na sua passagem. Os turistas por ali não ousavam. Agora regressou a paz, pelo menos aparente, nestas povoações profundamente amarradas à história milenar que as toldou e que as fez ser centro de confluência de diferentes credos e destinos.</p>
<p>Limparam-se-se as fachadas. Abriram-se as janelas. Os vasos regressaram aos beirais e deles brotam flores da primavera destes dias. Reabriram-se os velhos bazares.  Um ou outro hotel, que agora se chama &#8220;boutique&#8221; à conta dos quartos desiguais com detalhes únicos que os distinguem dos demais e que se vão preenchendo com corpos viajantes. Os artesãos, os comerciantes, as crianças, os empregados de mesa com copos de chá escuro engalanados nos tabuleiros, enchendo os passeios. As suas vozes, os seus risos, os seus gestos, os seus olhares. Tudo é movimento. Tudo é vida&#8230; e andam os turistas que, como nós, se misturam e pertencem também, mesmo que por instantes fugazes, a estas cidades de pedra e tempo.</p>
<h2>Em Urfa, deixando a vida passar</h2>
<p><a data-postid="fsg_post_3210" data-imgid="3216" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6714.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3216" alt="IMG_6714" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6714.jpg" width="800" height="505" /></a></p>
<p>De Mardin à cidade  histórica e simbólica,  de SanlIurfa (para os preguiçosos da fala, que somos quase todos &#8211; abreviada para Urfa),  onde as fés católica, muçulmana e judaica partilham crenças e passados, foram dois dias de pedaladas longas, planas e fáceis. Os 200 quilómetros repartiram-se pelos montes ondulantes do crescente fértil, uma estrada feita recta interminável, com camiões e, uma boa berma para manter a relação saudável &#8211; camiões e bicicletas querem-se a uma distância q.b., já que proximidades físicas geralmente têm maus resultados.</p>
<p>Em Urfa deixámos os dias passar.</p>
<p>Na preguiça da cidade do profeta Abraham &#8211; que se atirou do monte do castelo do irado rei Nimrod e foi cair na cidade em chamas, transformando o local da sua queda num lago onde nadam peixes sagrados, numerosos e anafados &#8211; mais do que a visitar mesquitas e monumentos que nos recomendava o nosso guia, passámos os dias nas varandas dos cafés, simplesmente a ver a vida dos outros a acontecer à nossa volta. As famílias a pique-nicar nos jardins, compostas por mulheres buliçosas de lenços à cabeça e sorrisos fartos chamando os filhos, quando estes saiam do seu raio de visão ou se preparavam para alguma traquinice. Os namorados de mão dada e olhares cúmplices trocados com pudor. Os turistas, de andar perdido, sobressaindo, com as suas roupas funcionais e sandálias de aventura, ajustáveis ao pé mais desajustado, com a meia a marcar uma moda que nunca o foi. E no lago Balikligol, as mãos dos transeuntes, que são muitos, a atirar migalhas da sorte aos peixes milagrosos, como se no acto de alimentar peixes se semeasse a esperança no fio condutor que é a água.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_3210" data-imgid="3217" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6752.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3217" alt="IMG_6752" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6752.jpg" width="800" height="500" /></a></p>
<p>Nos bazares, a azáfama usual e uma mescla menos usual das gentes árabes e curdas que são a maioria por estes lados. Nos escaparates os bens baratos chineses e o outros mais requintados, geralmente das Ásias mais a Ocidente, feitos  por mãos sábias e artesãs; o cheiro a especiarias e a narguilé, os becos apertados e escuros entre as bancadas e as portas das pequenas lojas onde os vendedores esclarecem a clientela, ou fazem mais um desconto para incentivar a compra. Nas arcadas centrais- o epicentro da vida social da cidade, pejada de homens  – novos e velhos, todas as gerações presentes &#8211; sentados em bancos pequenos, debruçados sobre tabuleiros de xadrez ou cartas de mais um jogo de sorte. A brilhar sobre as mesas pequenas, os copos de chá e os olhos nas conversas vivas.</p>
<h2>Gobekli Tepe, as ruínas onde o tempo parece ter começado</h2>
<p><a data-postid="fsg_post_3210" data-imgid="3218" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6804.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3218" alt="IMG_6804" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6804.jpg" width="800" height="533" /></a></p>
<p>De partida, depois de quase uma semana, fomos montar acampamento ali ao lado, num pinhal a pouco mais de 17 quilómetros de distância da cidade de Urfa. Fomos visitar Gobekli Tepe.</p>
<p>É o sítio religioso mais antigo que se conhece, redescoberto por um arqueólogo alemão em 1996. Precede Stonehenge em pelo menos 6500 anos.  No que já se escavou, na geometria das formas humanas e animais das pedras descomunais em forma de T, no pouco que se compreende, ainda é fácil deixar a imaginação preencher o vazio. Aquele é um local primordial da história humana, que permite o pensamento deambular no facto de que há já muito que namoramos o que não entendemos. Que há muito que erguemos pedras ao invisível e à grandeza do que não alcançamos no  universo (que é tanto), empoleirando-as no que agora nos parecem formas misteriosas, indecifráveis e impossíveis para as limitações técnicas desses tempos. A descoberta deste lugar lança uma nova questão a um período da história humana que permanece tão obscuro: a religião precederá as sociedades organizadas? Ou será que continuamos a montar o puzzle do nosso passado com as peças erradas?</p>
<p>Os arqueologistas ainda têm muito trabalho por fazer ali – mais de 95 por cento continua por escavar-, mas os curiosos já começaram chegar, sem no entanto o invadir desmedidamente. Permanece um local discreto, onde se comunga facilmente nas abstracções do passado e  se deambula entre pedras e campos de flores pequeninas amarelas, sem perder de vista o silêncio, a tranquilidade e o sentimento de que aquele é um lugar especial.</p>
<h2>Quem não arrisca&#8230;tem que voltar  atrás &#8211; nas margens do Eufrates</h2>
<p><a data-postid="fsg_post_3210" data-imgid="3220" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6928.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3220" alt="IMG_6928" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6928.jpg" width="800" height="449" /></a></p>
<p>Turquia adentro, rumo ao mar e às praias mediterrâneas que desaguam na costa  sul deste país, tínhamos ainda muita colina por atravessar. As estradas foram perdendo o conforto das bermas e a proximidade dos camiões, a trepidação das frágeis bicicletas na sua passagem, o bafo quente dos seus tubos de escape feitos gárgulas vomitando fumo preto,  fizeram-nos reconsiderar a rota e pedalar por estradas de campo, obscuras no mapa e carregadas de incertezas&#8230;</p>
<p>&#8211; É por aqui&#8230;o gps está a dizer que é por aqui.</p>
<p>Olhei para o caminho estreito em terra batida com um palmo de erva no meio, na parte onde as rodas do tractor que o percorria deixava intacto.</p>
<p>-Por aqui?! E o rio lá à frente?</p>
<p>-O gps, diz que há uma ponte&#8230;</p>
<p>-Uma ponte? Deves estar a gozar&#8230;e já agora uma portagem.</p>
<p>Não era tanto o ter que seguir o caminho para chegar à conclusão óbvia de que terminaria no rio. É que era a descer e com inclinação e em mau estado suficientes para saber que não iria ser fácil voltar a subi-lo, sobretudo porque teríamos que empurrar.</p>
<p>-Só se quiseres voltar para trás, para a estrada principal.</p>
<p>-Ok, vamos lá ver então essa ponte.</p>
<p>Pelo caminho que se foi desarranjado à medida que o íamos descendo, ficou óbvio que no final daquela estrada nunca houve ponte alguma. O rio era demasiado largo e caudaloso para tentarmos uma travessia com as bikes. Na outra margem, a que não alcançávamos, havia uma estrada branca que chamava por nós, como uma ninfa dos rios.</p>
<p>Olhámos para trás, para o que já tínhamos descido e olhámos para o relógio – pelo menos uma coisa boa: era hora de almoço. O regresso penoso até à estrada principal, certamente a puxar as bikes em calhaus rolados, podia esperar.</p>
<p>De barriga cheia, o sol da primavera nas primeiras horas da tarde, convidavam à sesta (o Nuno), ou à leitura de um livro (eu)  – desculpas do inadiável.</p>
<p>Depois de umas boas páginas lidas e o Nuno com a sesta terminada, voltei a olhar o rio.</p>
<p>&#8211; Amor! O que é que aconteceu ao rio? Baixou!</p>
<p>-Olha&#8230; pois baixou! &#8230;e em que é que estás a pensar? Não! É muito perigoso.</p>
<p>Ambos pensámos o mesmo: na noite anterior acampámos perto da barragem de Ataturk – a maior do país e uma das grandes barragens do mundo. A parede de cimento e a água borbulhante que se despenhava na base fizeram-nos perceber que no caudal que obstruía – o do grande rio Eufrates &#8211; e as descargas que resultassem da abertura das comportas da mesma, não eram coisa que se quisesse desafiar. A redução abrupta do caudal do rio afluente que tínhamos à nossa frente eram prova disso.  Mas como quem não arrisca&#8230;tem que voltar  atrás, fizemos o resto da descida e fomos avaliar as condições do rio semi-desaparecido.</p>
<p>Da avaliação concluímos que em partes o rio permanecia bastante fundo e com corrente, mas na parte mais larga – a que tínhamos visto do cimo do monte do almoço &#8211; a água não nos passava dos joelhos e dava para passar. O desafio maior  era atravessar sem escorregar onde o fundo estava forrado a pedras e lodo. Decidimos levar uma bicicleta à vez. Se as comportas abrissem tão de repente como tinham fechado lá iriam dois ciclistas desaguar ao Eufrates e fazer  primeira página de algum jornal local. A travessia foi um sucesso, escorregadio, mas um sucesso. Com a estrada branca, agora na margem certa e, sem mais obstruções aquáticas, ficou apenas a sensação boa reservada aos que arriscam.</p>
<p>Ao nosso acto ousado seguiu-se o sobe e desce das estradas perdidas nos campos da grande Anatólia. Não vêm nos mapas. Se calhar, só existem nas nossas cabeças, nas nossas pernas, nos nossos quilómetros pedalados &#8211; nosso mapa mundo pessoal.</p>
<p>O rio Eufrates aparecia e desaparecia . No intervalo das suas aparições tivemos uma visão: acampar ao lado do rio icónico, banhado de azul esverdeado, pilar do destino humano.</p>
<p>Empurrámos as bicicletas pelos campos de cultivo, ainda em repouso e, num penhasco panorâmico debaixo do qual passavam as águas pardacentas do grande rio,  montámos poiso.</p>
<p>Não era a” insustentável leveza do ser”, como lhe chamou Kundera  por razões distintas&#8230;era a inimaginável leveza do ser&#8230;a felicidade em estado bruto, o nosso estado mais leve e feliz. A alma forrada a vermelho carmim das papoilas à nossa volta, o som dos xilofones descoordenados que eram os sinos das ovelhas na outra margem. A vertigem do precipício onde montámos a tenda &#8211; um dos acampamento mais especiais da nossa viagem.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_3210" data-imgid="3221" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6976.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3221" alt="IMG_6976" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/08/IMG_6976.jpg" width="723" height="464" /></a></p>
<p>Na manhã seguinte acenámos ao agricultor em cima do seu tractor – não deve ser todos os dias que aparecem dois turistas a puxar duas bicicletas carregadas campo acima-, como se fosse o nosso vizinho e seguimos rumo a mais dias desta vida, por sinal nada má, que nos liga ao mundo, a nós, e às nossas bicicletas!</p>
<p>Nas próximas aventuras continuamos Turquia adentro  até chegar ao mar mediterrâneo, com mais histórias, castelos e encontros&#8230;</p>
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		<title>Itinerário na Suiça</title>
		<link>http://globonautas.net/itinerario-na-suica/</link>
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		<pubDate>Sat, 16 Aug 2014 19:36:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[A matemática da viagem]]></category>
		<category><![CDATA[Suiça]]></category>

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		<description><![CDATA[De  10 de Julho a 5 de Agosto de 2014
540 kms pedalados]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Data de entrada: 10 de agosto de 2014</strong></p>
<h2>Estatísticas</h2>
<p>Total dias: 27<br />
Dias de ciclismo: 11<br />
Dias descanso: 16<br />
Kms pedalados: 540<br />
Horas pedaladas: 52h 30m<br />
Km/dia (med): 49<br />
Altitude máxima: 2332m<br />
Desnível acomulado: 6185m<br />
Altitude/dia (med): 562m<br />
Noites em hoteis: o<br />
Noites campismo livre: 7<br />
Noites com particulares: 20<br />
Custos/noite (med p/p): € 0<br />
Custos totais diarios (p/p): € 6.10<br />
Furos: Joana 0 Nuno 0</p>
<p>D915 acampados perto de scoul – 50.2 kms<br />
D916 Acampamento de escuteiros, antes de S-Chanf<br />
D917 Casa da Donata e Keith, Donat – 72. 8 kms<br />
D918 ao D920 descanso, Donat<br />
D921 Acampados depois de chur – 47.6 kms<br />
D922 Junto ao lago Walensee, antes de Murg – 49.1 kms<br />
D923 Casa do Bruno huber, Siebnen – 31.9 kms<br />
D924 Casa da familia Heinzer Brilhante, Ibach – 45.3 kms<br />
D925 ao D936 Descanso, Ibach<br />
D937 Casa da Valerie e João Fonseca, Mellingen – 72 kms<br />
D938 Descanso, Mellingen<br />
D939 Algures antes de Riken – 42 kms<br />
D940 Junto ao lago de Biel, antes de Luscherz – 73 kms<br />
D941 Depois de Fleurier – 66.9 kms<br />
D942 Acampados depois de Champagnole- 70.3 kms (entrada na França)</p>
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		<title>Itinerário na Itália</title>
		<link>http://globonautas.net/itinerario-na-italia/</link>
		<comments>http://globonautas.net/itinerario-na-italia/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 18 Jul 2014 13:38:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[A matemática da viagem]]></category>
		<category><![CDATA[Itália]]></category>

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		<description><![CDATA[De 6 de Julho a 9 de Julho de 2014
261 kms pedalados]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Data de entrada: 6 de março de 2014</strong></p>
<h2>Estatísticas</h2>
<p>Total dias: 4<br />
Dias de ciclismo: 4<br />
Dias descanso: 0<br />
Kms pedalados: 261<br />
Horas pedaladas: 19h 45m<br />
Km/dia (med): 65.2<br />
Altitude máxima: 1319m<br />
Desnível acomulado: 1739m<br />
Altitude/dia (med): 434m<br />
Noites campismo livre: 4<br />
Custos/noite (med p/p): € 0<br />
Custos totais diarios (p/p): € 4.80<br />
Furos: Joana 0 Nuno 0</p>
<div class="hr"></div>
<p><a data-postid="fsg_post_3235" data-imgid="3258" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/07/45-trentino-alto-adige-map.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3258" alt="45 trentino-alto-adige-map" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/07/45-trentino-alto-adige-map.jpg" width="400" height="393" /></a></p>
<p><strong>Sul de Tirol</strong><br />
<strong></strong><br />
D911 Acampados antes de Brunico – 46.3 kms<br />
D912 acampados depois de Bressanone – 64.1 kms<br />
D913 Acampados em cima de uma mesa, Merano – 63.7 kms<br />
D914 Acampados antes do paso de Reschen – 78.8 kms<br />
D915 Perto de Scoul – 50.2 (entrada na Suiça)</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Itinerário na Áustria</title>
		<link>http://globonautas.net/itinerario-na-austria/</link>
		<comments>http://globonautas.net/itinerario-na-austria/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 18 Jul 2014 13:22:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[A matemática da viagem]]></category>
		<category><![CDATA[Áustria]]></category>

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		<description><![CDATA[De 30 de Junho a 5 de Julho de 2014
305 kms pedalados]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Data de entrada: 30 de Junho de 2014</strong></p>
<h2>Estatísticas</h2>
<p>Total dias: 6<br />
Dias de ciclismo: 5<br />
Dias descanso: 1<br />
Kms pedalados: 305<br />
Horas pedaladas: 28h 13m<br />
Km/dia (med): 61<br />
Altitude máxima: 1320m<br />
Desnível acomulado: 3269m<br />
Altitude/dia (med): 653<br />
Noites em hoteis: 0<br />
Noites campismo livre: 4<br />
Noites com particulares: 2<br />
Custos/noite (med p/p): € 0<br />
Custos totais diarios (p/p): € 4.12<br />
Furos: Joana 0 Nuno 0</p>
<div class="hr"></div>
<p>D905 Campo de milho antes de Neuhaus – 71.9 kms<br />
D906 junto ao rio Drau, antes de Goltschach – 67.3 kms<br />
D907 Junto ao rio Drau, antes de Weissenstein – 73.5 kms<br />
D908 Acampados depois de Amlach – 69.7 kms<br />
D909 Casa do Peter e Petra, ausservillgraten – 70.7 kms<br />
D910 Descanso, aussevillgraten<br />
D911 Antes de Brunico – 46.3 kms (entrada na Italia)</p>
]]></content:encoded>
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