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	<title>Globonautas &#187; Tajiquistão | Globonautas</title>
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		<title>Ásia Central &#8211; O ponto alto das nossas pedaladas</title>
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		<pubDate>Wed, 28 May 2014 12:22:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[TV Globonautas]]></category>
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				<content:encoded><![CDATA[<p>Na Ásia Central levámos as bikes até às Pamir. Lá, perdemos o fôlego, mas, ganhámos acesso a um mundo onde tudo era escasso, excepto a beleza, essa superior, e o calor dos que cruzavam o nosso caminho. Território de montanhas e planícies, que pedalámos muitas vezes na senda dos viajantes que percorreram os mesmos trilhos com os seus camelos carregados com sedas e especiarias. Na derrocada do grande império soviético, nos países &#8220;franja&#8221; como o Quirguistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Turquemenistão, aqui deixamos o registo em video do que foram os nossos dias de pedaladas por estas paragens.</p>
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		<title>Tajiquistão &#8211; sabes guardar um segredo?</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Jan 2014 16:41:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Histórias da estrada]]></category>
		<category><![CDATA[Tajiquistão]]></category>

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		<description><![CDATA[Ainda levou o anel à dentuça de ouro para confirmar a sua qualidade (...). Limpei o anel às calças antes de o enfiar no dedo (eu sei que as cáries não são contagiosas, mas nunca se sabe).]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<h2><b>De Khorog a Dushanbe &#8211; o erro de pensar que o mais difícil está feito&#8230;</b></h2>
<p><a data-postid="fsg_post_2404" data-imgid="2412" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/IMG_2878.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2412" alt="IMG_2878" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/IMG_2878.jpg" width="768" height="512" /></a></p>
<p>Há alturas em que tenho a sensação de estar num sítio maior do que nós e a nossa compreensão das coisas, um sítio tão para lá do espaço, do tempo, da dimensão real&#8230; um sitio à parte, como uma catedral de proporções infinitas com tecto de céu. É como se a nossa presença ali fosse um sacrilégio, que os ruídos dos solavancos das bicicletas, o chiar da correntes com a falta de óleo, as respirações ofegantes nas subidas, os nossos corpos sem dias de banho &#8211; quando tudo ali devia ser pureza,  excepto o som das admoestações do vento, do canto efervescente da água  no seu longo percurso rumo ao oceano, do chilrear dos pássaros com o seu picotar agudo do silêncio. A estrada que pedalámos de Khorog a Shuroabad rumo a Dushanbe, atravessa um desses sítios raros, onde nada importa, só o que nos rodeia. Um sítio onde nos esquecemos de tudo para viver apenas no seguimento do que se encontra ao longo do que a estrada trilhou.</p>
<p>Quando deixámos Khorog, depois de quatro dias de descanso a aguardar um dia bonito de sol para partir, fomos com a mente vazia de expectativas. Não fazíamos ideia do quão bonito ou quão duro os próximos quilómetros seriam. A estrada que aguardava  por nós era mais apropriada a veículos numa missão a Marte, do que bicicletas, ou camiões, ou &#8221; Ladas&#8221; – estava num estado terrível, e as imagens que de lá guardamos são mais coerentes num universo fictício do que nas imagens naturais de um mundo real.  Mas neste ponto  é curioso notar também a correlação entre dificuldade física e beleza, como se fosse algo que tivesse que ser merecido.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2404" data-imgid="2414" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/P1240185.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2414" alt="P1240185" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/P1240185.jpg" width="768" height="513" /></a></p>
<p>Andar no topo das montanhas das Pamir tinha sido os ponto alto esperado onde o pior das nossas expectativas não se tinha concretizado. A etapa que se seguiu foi o revés, sem grandes expectativas, o mais impressionante, ainda estava por pedalar e revelou-se nos vales profundos cavados pelo rio Panj e a vida de outro país, que víamos mas não tocávamos – o Afeganistão.</p>
<h2><b>“Voyeurismo” de viajantes: Afeganistão, o país do outro lado do rio</b></h2>
<p><a data-postid="fsg_post_2404" data-imgid="2410" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/IMG_2849.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2410" alt="IMG_2849" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/IMG_2849.jpg" width="768" height="512" /></a></p>
<p>Nunca antes viajar num país se assemelhou tanto a viajar em dois (e ao mesmo tempo).</p>
<p>O Tajiquistão e o Afeganistão partilham fronteiras numa linha que os separa ao longo de mais de 1300 quilómetros &#8211; grande parte dos quais ao longo do rio Panj. Pedalámos  quase 400 desses quilómetros numa estrada que ficará para a história das nossas viagens como das mais marcantes. Um parapeito sobre o rio Panj e o Afeganistão.</p>
<p>As pedaladas começaram tranquilas com a estrada a subir e a descer suavemente, ainda sobre um tapete meio esburacado de alcatrão, ao longo do qual, sempre que as margens do rio o permitiam, se aninhava uma aldeia. À hora de almoço comemos  num areal junto ao  rio, com os olhos postos no outro país.  Um jovem apareceu na outra margem e acenou, tentando encurtar a distância que pouco mais era do que 50 metros de água.</p>
<p>No final do dia, as margens estavam já  reduzidas ao  espaço criado pelas estradas na confluência de duas montanhas empinadas, separadas apenas pelo turbilhão aquático que era o rio.</p>
<p>Na manhã seguinte o sol demorou a espalhar os seus raios na direcção da nossa tenda porque as montanhas faziam de cortinas que não se abriram. Desistimos de esperar que o sol nos aquecesse, e fizemo-nos à estrada assim que terminámos o pequeno almoço .</p>
<p>O vale foi apertando e as aldeias, na falta de espaço, desapareceram, nele, o movimento de luz e sombras mudando de posição como um relógio solar de proporções colossais. Seguimos sentindo que era  no nosso corpo que se estava a dar aquela redução de espaço, aquele apertar de encostas .  E seguimos com os olhos postos na outra margem, onde agora em vez de estrada havia apenas o espaço para um par de pés (dois, quanto muito)  caminharem , entre a parede vertical e o precipício para o rio. Era um fio ténue onde a vida circulava como se por um fio, como se o único que aquela gente soubesse fazer fosse viver a vida  numa acrobacia eterna entre penhascos.</p>
<p>Ocorreu-me pensar que aquilo era uma ilha escarpada totalmente isolada do seu centro, onde habitava o  monstro (a guerra que grassa o país desde há séculos) e que os riscos e as limitações de se viver  ali, se sobrepunham ao de viver em guerra.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2404" data-imgid="2409" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/IMG_2827.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2409" alt="IMG_2827" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/IMG_2827.jpg" width="768" height="526" /></a></p>
<p><a data-postid="fsg_post_2404" data-imgid="2416" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/P1240275.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2416" alt="P1240275" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/P1240275.jpg" width="768" height="513" /></a></p>
<p>A estrada do nosso lado eventualmente deteriorou-se para se tornar  numa linha branca de altos e baixos irregulares, proporcionados pelas derrocadas e as pedras soltas que agora preenchiam o percurso. Sujeitos também aos humores inconstantes do tempo, que umas vezes nos brindava com mini-tornados poeirentos, outras com chuva torrencial que desaparecia tão rapidamente quanto aparecia -perdemos a noção do tempo, e  tal como os afegãos do outro lado, também nós  flutuávamos na estrada como se não  fossemos nunca sair dali.</p>
<p>Quantas vezes parámos hipnotizados com o que víamos na outra margem? E quantas vezes parámos para dizer adeus, ouvindo o eco das nossas vozes e das vozes do outro lado?  – é difícil de dizer&#8230; assim como é difícil imaginar os seres pequenos com molhos de lenha às costas, maior do que o volume dos seus corpos, percorrendo ágeis o  pequeno carreiro esculpido. Ou os homens de turbante na cabeça e vestes longas, guiados por burros e as suas cargas. Ou os rebanhos numerosos, deixando na sua passagem  nuvens de poeira, trepando o caminho estreito. Ou a escola  feita em adobe de onde no final da lição as crianças saíram a correr. Ou as aldeias em escadarias que mal se distinguiam das montanhas onde estavam incrustadas.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2404" data-imgid="2408" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/IMG_2813.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2408" alt="IMG_2813" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/IMG_2813.jpg" width="768" height="512" /></a></p>
<p>Quando finalmente a nossa estrada se afastou do rio e como consequência, do outro país que viajávamos com os olhos, fê-lo presenteando-nos com uma subida dolorosamente íngreme e esburacada, como um obstáculo à nossa partida.</p>
<h2><b>Guia de sobrevivência : controles policiais</b></h2>
<p>Controles policiais são parte incontornável da vida de um viajante na Ásia Central . Na área em que o Tajiquistão faz fronteira com o Afeganistão esse controlo é redobrado como forma preventiva da entrada de radicais islâmicos e substâncias ilícitas &#8211; nomeadamente a heroína.</p>
<p>Ter um sorriso amarelo a jeito, embora não essencial,  assim como dois dedos de conversa,  parecem fazer com que o processo  se desenlace com a maior brevidade possível. Para quem não fala russo, que é o nosso caso, um &#8220;ruski –niet&#8221; reduz a conversa  a um dedo, o que parece também chegar.</p>
<p>Para se ficar com uma ideia do que são estes encontros, passamos a descrever cenários possíveis e variantes, que vivemos nos postos de controle do Tajiquistão ao longo da nossa viagem entre Khorog e Dushanbe.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2404" data-imgid="2413" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/IMG_3091.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2413" alt="IMG_3091" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/IMG_3091.jpg" width="768" height="529" /></a></p>
<p>O mais comum&#8230;</p>
<p>Chega-se ao posto, que é normalmente uma casota em ruínas, com uma cancela ferrugenta,  de onde sai um guarda barrigudo com dentes de ouro e um chapéu na cabeça que parece uma antena parabólica da TV Cabo.</p>
<p>-Assalamalecum,  dizemos nós (a paz esteja consigo )</p>
<p>-Alecumsalam, responde o guarda (que a paz esteja com vocês também)</p>
<p>&#8211; Genaa? e aponta para mim, olhando para o Nuno,  ao que eu respondo: da, mooch. E aponto para o Nuno.</p>
<p>(referem-se ao nosso estado marital, genaa –mulher e mooch-marido, não o somos, que fique claro, mas para estas circunstâncias passámos a ser)</p>
<p>Depois pedem o passaporte, perguntam a nacionalidade, falam do Cristiano Ronaldo. Quando o passaporte é entregue e a palavra  “dasvidania” (adeus) é proferida, sabemos que estamos livres para partir.</p>
<p>Ou, se está frio; ou se o guarda é preguiçoso; ou se quer impressionar os colegas com os ciclistas vagabundos que encalharam na cancela, levam-nos posto adentro (a tal casota em ruínas que parece ser o estado geral destes edifícios), apontam os detalhes do nosso passaporte, num livro que parece um livro de visitas, numa escrita que parece a letra de uma professora primária – bonita e cheia de arabescos. Fazem exactamente as mesmas perguntas e perguntam também se lhes vendo o meu anel!  Desta vez o polícia era alto e magro, mas com os mesmos acessórios (dentes de ouro e antena parabólica na cabeça) e não tirava os olhos da minha mão. Antes de começar a ficar preocupada, apontou-me para o dedo onde o bendito anel estava e começou a fazer gestos com as suas mãos, parecidos com o gesto rudemente usado para a copulação&#8230;voltei a ficar preocupada, até perceber que queria que tirasse o anel para o ver. Sem outro remédio passei-lho para as mãos e o homem perecia verdadeiramente impressionado com o que via –“harashó, harashó” (bom,bom). Quanto é que eu queria para o vender ? Niet, niet,&#8230;grandmother, grandmother, family, não to posso vender, é um anel de família. – Money, money.  – No, not possible, niet money, niet money. Eventualmente  desistiu da compra.  Ainda levou o anel à dentuça de ouro para confirmar a sua qualidade e disse algo que me pareceu, “que pena”, antes de o devolver. Limpei o anel às calças antes de o enfiar no dedo (eu sei que as cáries não são contagiosas, mas nunca se sabe). O engraçado da história é que tinha comprado  o bem fadado anel  há uns sete anos atrás numa loja de coisas em segunda mão &#8211; custou-me uns 5 euros&#8230;nem sequer é de prata ! Mas é uma parte tão integrante do meu dedo médio esquerdo,que  é como se fosse uma segunda unha. Nunca  venderia esta parte tão integrante de mim  a um guarda com ar de mafioso. Mas fosse eu mais despegada das coisas, cheira-me que tinha feito um bom negócio.</p>
<p>E aconteceu-nos ainda&#8230;</p>
<p>Num dia em que passávamos já pelo segundo posto de controle num espaço de 500 metros, com todas as situações acima mencionadas a repetirem-se (excepto a venda do anel): o estado marital, o pedido de passaporte, a nacionalidade, o Cristiano Ronaldo&#8230;e com a nossa paciência já atingir os limites, os  passaportes desapareceram com o guarda, que era um militar enquanto esperávamos em frente à cancela. Regressam  um minuto ou dois depois acompanhados por  três pães ainda quentes, que nos foram oferecidos.</p>
<p>&#8211; Goodbye and enjoy Tajikistan.</p>
<p>&#8211; Will do sir! Rahkmat, spaciba, thank you e obrigado!</p>
<p>Não queríamos acreditar no que nos tinha acabado de acontecer– um militar num poste de controle ofereceu-nos três pães ! As sandes de pão quentinho que fizemos uns 10 minutos depois, confirmaram que sim, e confirmaram que se há algo a aprender no que respeita a postos de controle de passaporte é aprender a  não esperar nada&#8230;porque pode acontecer de tudo!</p>
<h2><b>O hotel “dengoso”</b></h2>
<p><a data-postid="fsg_post_2404" data-imgid="2450" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/P12402961.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2450" alt="P1240296" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/P12402961.jpg" width="768" height="512" /></a></p>
<p>Poder-se-ia acrescentar “hotéis da era soviética” à lista de  inevitabilidades de um viajante na Ásia Central, mas vistas bem as coisas, num hotel só fica se assim se desejar, ao contrário de um controle de passaporte.</p>
<p>Depois de ultrapassadas as Pamir, os vales inclinados do rio Panj e dizer adeus ao país ao lado, no qual  ficou a sensação de se ter andado a viajar – o Afeganistão, a paisagem cobriu-se de searas secas no final da estação com rebanhos lânguidos a intercalar o amarelo.  Na mesma proporção em que a paisagem perdeu interesse ganhou trânsito e as aldeias foram aparecendo em intervalos cada vez menos curtos. No final de pedaladas de um desses dias anónimos em que o mais marcante que nos acontecia no final de cada dia era  estarmos mais próximos de Dushanbe,  fomos acabar o dia numa vila de nome prometedor – Dengara. Como sabíamos que depois dessa vila nos esperava uma subida decidimos tentar a nossa sorte e procurar hotel – seria o primeiro onde ficávamos depois de nove dias, e a ideia de um banho quente, sobretudo  com as nuvens cinzentas que agouravam o horizonte, tornaram a missão mais aliciante.</p>
<p>Como no desdobrar de uma concertina a pergunta – hotel?  levou-nos de pessoa em pessoa a um edifício de cimento com quatro andares.  Um rapaz levou o Nuno num “tour”  do velho hotel e quando regressaram as notícias não eram as melhores. A começar pelo preço exorbitante que nos foi pedido inicialmente e que depois conseguimos negociar (embora o sítio fosse tão mau que o mais lógico era que nos pagassem para ficar e não o contrário)&#8230; mas vamos por partes: o quarto ficava no quarto andar e olhando à primeira vista até passava por aceitável com os cortinados barrocos e a mobília de plástico e contraplacado de influência neo-clássicas, isto até se começar a reparar nos pormenores, como a alcatifa com tanto cabelo que parecia poder fazer-se uma peruca, ou as crostas de pão bolorento, as cascas de melancia e as pontas de cigarro que faziam as vezes de &#8220;bijous&#8221;  nos topos poeirentos da mobília. A casa de banho ficava ao fim do corredor, chuveiro talvez tivesse existido, noutra encarnação&#8230;e a retrete (claro): uma verdadeira obra prima “à la” Jackson Pollock, onde predominava o uso abusivo da cor castanha, como base cromática principal da obra. Pelo menos, não se pode dizer que o rapaz que tomava conta do hotel não fosse prestável –quando lhe perguntámos pelo chuveiro, desapareceu por uns minutos e reapareceu no quarto com um balde metálico e uma resistência eléctrica – a água era para se ir buscar ao terceiro andar &#8211; com o balde. E a resistência eléctrica para enfiar lá dentro e esperar que a água aquecesse.  Pelo menos começou a chover para nos demover da vontade de agarrar na tenda e nas bicicletas e fugir dali a sete pés.</p>
<h2><b>Dushanbe, ditaduras, vistos e outros estrangeiros</b></h2>
<p><a data-postid="fsg_post_2404" data-imgid="2420" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/P1240463.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2420" alt="P1240463" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/P1240463.jpg" width="768" height="393" /></a></p>
<p>Chegámos a Dushanbe ao final da tarde. Os últimos dias de pedaladas tinham sido miseráveis e molhados partilhados com os camiões e os muitos carros que iam, como nós, rumo à capital. De resto, uma ou outra subida para aquecer os espíritos e dois  túneis longos sem bermas, que tivemos que pedalar sobre uma plataforma erguida usada para o escoamento de águas – uma dose final de adrenalina. Curioso notar também que um dos passeios nacionais parecia ser precisamente  ir até aos túneis novos feitos  pelos chineses, tirar a fotografia de família e atravessar o túnel em grande velocidade a apitar- fazendo creio eu &#8211;  o teste à  acústica da construção e à resistência dos nossos tímpanos.</p>
<p>Dushanbe é uma cidade estranha. Tem a característica rara de parecer não fazer parte do país à qual preside e é capital – pelo menos para quem se movimenta na sua rua principal – a Rudaki. É uma amalgama de edifícios grandiosos que jazem vazios, sem que o fim para que foram construídos seja evidente. É impossível não ser cínico relativamente a este esbanjamento de cimento e dinheiro em edifícios públicos de fachada quando o país está entre os mais pobres do mundo e quando essa realidade é bem palpável .  Mas à parte de meia dúzia de intelectuais e dissidentes, as pessoas no geral, parecem contentar-se com as limitações do regime totalitário do senhor Rakhmov e, sobretudo, com a paz que o regime parece ter trazido. Os grandes do mundo também gostam dele,  da sua personalidade fácil e moldável aos seus  interesses. Neste cenário  as coisas num futuro próximo continuarão como sempre foram – democracia de fachada, tal como os edifícios inúteis que se constroem na  capital.</p>
<p>Foi em Dushanbe que obtivemos com sucesso os vistos para os próximos países: Uzbequistão, Turquemenistão e Irão, não sem algumas correrias e um avultado fundo de maneio – cerca de 350 euros por pessoa . Não é a brincar que dizemos que é bom que estes países sejam, no mínimo, extraordinários, se não, queremos o nosso dinheiro de volta.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2404" data-imgid="2419" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/P1240322.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2419" alt="P1240322" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/P1240322.jpg" width="768" height="543" /></a></p>
<p>Tivemos a sorte de ter ficado  em casa da Christine, uma francesa simpática a trabalhar no Tajiquistão num projecto de uso de energias alternativas. Com ela viviam mais quatro estrangeiros a trabalhar no país envolvidos em projectos semelhantes &#8211;  a Audrey, o Darragh (que foi o nosso guia cultural e histórico da cidade e arredores) e a Lisa, a sua namorada. Foi bastante interessante ter tido acesso às suas experiências, ideias informados sobre a vida e o mundo e ter conhecido os seus amigos locais &#8211; deixávamos o Tajiquistão com a sensação de ter tido a oportunidade de o ver sob um prisma de várias luzes.</p>
<h2><b>Tajiquistão o país ao qual ainda não chegámos tarde</b></h2>
<p>O Tajiquistão é um país que nos faz sentir pequenos. Pequenos porque a paisagem contida nas suas fronteiras é incomensuravelmente grande. Pequenos, porque as suas gentes são espontânea e gratuitamente das mais hospitaleiras  e generosas que alguma vez conhecemos. Pequenos, pelo parco conhecimento que tínhamos sobre o país e o tanto que este tem para oferecer. Pequenos, na descoberta de termos encontrado finalmente um país ao qual não chegávamos demasiado tarde, onde as coisas ainda eram o que deviam de ser, sem que o turismo desmedido e sem regras lhe tenha  roubado a alma. É difícil dizer por quanto tempo permanecerá assim – seria bom que para sempre, mas se o segredo deixa de o ser, suspeitamos que em breve o Tajiquistão virá no topo lista de países a não perder no espaço de uma vida. Vamos manter então o segredo?</p>
<p>Dushanbe está a um dia de ciclismo da fronteira com o Uzbequistão, que se transformou-se em dois. A corrente da minha bike, depois de tanto mau trato e abuso, partiu. O Nuno conseguiu voltar a uni-la, mas voltou a partir-se.  Decidimos que o Nuno tomaria as rédeas à minha burra e eu à dele. Os dois dias até à fronteira seguiram aos solavancos marcados pelas paragens constantes para remendar a corrente e a vê-la reduzir de tamanho a uma velocidade preocupante.</p>
<p>Problemas com a corrente à parte, não podíamos ter deixado o país numa nota mais positiva: a nossa última noite foi passada em casa de uma família simpática que nos acolheu quando buscávamos sítio, numa aldeia junto à estrada, para por a tenda. A sua alegria, a sua simpatia, sua generosidade irá connosco onde formos.</p>
<p>Fica um Obrigado sentido ao Tajiquistão e às suas gentes! Um dia voltaremos.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2404" data-imgid="2421" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/P1240475.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2421" alt="P1240475" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2014/01/P1240475.jpg" width="768" height="501" /></a></p>
<p>As próximas histórias virão do Uzbequistão,  com novos capítulos na nossa saga com agentes da autoridade, mais generosidade alheia, o drama não resolvido da minha bicicleta e as cidades históricas da Rota da Seda.</p>
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		<title>Diário das Pamir – De Murgabe a Khorog (Parte II)</title>
		<link>https://globonautas.net/diario-das-pamir-de-murgabe-a-khorog-parte-ii/</link>
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		<pubDate>Thu, 26 Dec 2013 17:49:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Histórias da estrada]]></category>
		<category><![CDATA[Tajiquistão]]></category>

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		<description><![CDATA[O pequenito estende-me a sua para retribuir o cumprimento (...). A sua mão é tão pequenina que transforma estes dois  gestos em algo maior e mais profundo.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<h2>As gentes das Pamir</h2>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2359" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1240023.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2359" alt="P1240023" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1240023.jpg" width="768" height="541" /></a></p>
<p><em><em>Gente. De onde vem esta gente? E o que fazem aqui? Não são muitos, mas aparecem dos sítios menos prováveis, quando menos se espera. Entidades omnipresentes, embutidas na paisagem que surgem do meio do deserto que são estas montanhas &#8211; sombras que se transformam em massa humana com o distrair do olhar. Aparecem nos casarios semi abandonados, demasiado frios, escuros e debilitados para a habitação, mas onde ainda assim persistem em assentar vidas. Nos vales onde os rios se afundam encosta abaixo.  No meio do pontilhado que são os rebanhos que se vêm na distância&#8230;Nas povoações feitas de pó e terra. São as gentes das Pamir – os pamiri. Entender a sua existência, a sua história  a sua cultura faz  parte do processo que é entender esta ilha rochosa que os isola do resto do país, e por extensão, do resto do mundo, mas que por isso mesmo lhes conserva a identidade.</em></em></p>
<p><em>Os pamiri são, como qualquer outro povo,  o fruto da manta de retalhos que cresceu  da passagem de viajantes, povos, exércitos e impérios. Cimérios, persas, budistas, macedónios, gregos, hunos, mongóis, árabes, russos, nómadas quirguizes,  entre outros tantos que passaram, conquistaram, e alguns, que  ficaram. O resultado desta manta é tão heterogéneo como os diferentes dialectos que se falam na região.  Para além do isolamento, da vida parca em confortos, este povo está unido pela língua (o Persa do Este do Irão),  a religião (o  Ismaelismo, um  ramo do islamismo xiita), o país (o Tajiquistão) e as Pamir, delineadas pela região autónoma Gorno- Badaskshan.</em></p>
<p><em>Na primeira parte da nossa etapa nas Pamir a paisagem prevaleceu sobre o contacto humano que foi quase sempre marcado por encontros breves e fugazes. Nesta segunda parte, onde descemos aos vales estreitos e mais propícios à vida humana, a paisagem imprimida na musicalidade do outono, não perdeu monumentalidade e adquiriu uma nova dimensão : a dimensão humana, a dimensão das gentes pamiri, onde a palavra hospitalidade ganhou, no nosso léxico de viajantes, um significado tão mais amplo&#8230; e onde aprendemos que ter espaço na bexiga para beber mais uma taça de chá, assim como ter que acordar a meio da noite vezes infindáveis para a descarregar, é uma das componentes essenciais da experiência  do que é  viajar pela Ásia Central. </em></p>
<p><em>Aqui fica a segunda e última parte do registo do nosso Diário das Pamir. </em></p>
<h2>De Murgabe a antes do passe de Naizatach</h2>
<p><em>Dia 700 -9.10.2013</em></p>
<p><em>49.20 kms</em></p>
<p><em>Acampados a 4112 msnm</em></p>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2360" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/IMG_2622.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2360" alt="IMG_2622" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/IMG_2622.jpg" width="768" height="512" /></a></p>
<p>A luz do sol entrou pelo quadriculado das janelas do quarto. Através dos vidros embaciados via-se a imagem desfocada do pátio lá fora e do Sr Tulfabek e a mulher entregues às lidas matinais . Dentro do tanque do lavatório metálico que havia à entrada da casa de hóspedes, água quente, para que não fosse tão dolorosa a rotina de higiene pessoal no frio ríspido da manhã. Na mesa, um pequeno almoço de ovos estrelados, salsichas, chá e  pão caseiro feito pela Sra Tulfabek – um pão de forma generoso que devorámos com um fastio pouco pudico, apenas apropriado a um subnutrido ou esfomeado, o que não era claramente o nosso caso.</p>
<p>No fim do repasto, pedimos a conta ao Sr Tulfabek e não pudemos deixar de notar um certo constrangimento quando nos respondeu que pagássemos o que entendêssemos, que fizesse-mos as contas nós mesmo.</p>
<p>O Nuno agarrou num papel e assentou a comida e o custo do alojamento com o preço que tinha ficado acordado. Entregou o papel ao Sr Tulfabek que emendou as contas não se cobrando de um jantar, dos lanches de pão com margarina e café instantâneo e dos muitos chás&#8230;</p>
<p>&#8211; Então mas o preço tinha ficado acordado. Disse o Nuno em tom de gentil protesto</p>
<p>&#8211; Desculpem, mas vocês são meus convidados&#8230;</p>
<p>Na falta das palavras da frase inacabada, percebemos que lhe custava fazer da hospitalidade, parte integrante da forma de ser e estar destas gentes, o seu meio de sustento.  Para nós, no entanto, foi com prazer que deixámos o maço avultado de &#8220;soms&#8221; nas suas mãos. Deve ser um equilíbrio difícil de manter quando a tradição marcada pelos valores religiosos e pessoais ditam os deveres da hospitalidade gratuita.</p>
<p>À saída de Murgabe fomos  interrompidos pela cancela ferrugenta de um &#8220;check-point&#8221; e um guarda que nos levou os passaportes para registar os nossos detalhes. Passaportes devolvidos, seguimos, montanha acima, por uma estrada  alcatroada de inclinações suaves e quando passámos para o outro lado do passe percebemos que tínhamos ficado expostos ao vento – o famoso vento contra que mais cedo ou mais tarde será companheiro de viagem nas Pamir.</p>
<p>Ipod no cesto e auscultadores nos ouvidos  com o&#8221; play&#8221; na colectânea de música “disco” – eis o meu segredo para enfrentar  com um sorriso o desafio acrescido – a estrada é a minha discoteca, e se não é o momento para soltar o corpo e dançar, faz-se a reciclagem e&#8230;pedala-se!</p>
<p>De resto a paisagem é um deserto onde de quando em vez duas ou três casas desafiam a lógica do que é propício à vivência humana. Delas, contra todas as expectativas, aparecem pessoas e crianças, estóicas do que as rodeia, com os seus rebanhos raspando o solo do pouco que o solo tem para dar.</p>
<p>O vento não nos deu tréguas o dia todo &#8211; nem no final do dia. Montar a tenda é um exercício de ginástica coordenada para nos asseguramos que as varas não partem e a que tenda não voa.</p>
<p>Os sibilos do vento, que nos abana a tenda,  embalam-nos o sono leve.</p>
<h2>Do passe de Naizatach ao acampamento das patas de yak (perto de Alichur)</h2>
<p><em>Dia 701 -10.10.2013</em></p>
<p><em>42.30 kms</em></p>
<p><em>Acampados a 4149 msnm</em></p>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2346" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230845.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2346" alt="P1230845" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230845.jpg" width="768" height="513" /></a></p>
<p>Duas palavras descrevem o dia de hoje: vento e&#8230;&#8221;disco &#8220;!  A média dos nossos conta quilómetros não ultrapassou os 8/9 kms por hora quando podíamos ir a mais de 20. Estas planícies desabrigadas começam a cansar como discoteca improvisada.</p>
<p>O Nuno consegue convencer-me a  fazermos turnos e pedalar atrás do outro, para nos proteger-mos do vento e para que as pedaladas rendam mais.</p>
<p>&#8211; Prometes que não me vais dar guinadas a cada 5 minutos? (as nossas tentativas prévias nesta táctica amplamente usada por ciclistas em equipa, tinham terminado comigo a parar a bike e a proibir o Nuno de vir atrás de mim por me estar sempre a dar cacetadas com a bike dele)</p>
<p>&#8211; Prometo. Desta vez prometo que não me distraio.</p>
<p>Promessa cumprida. Primeiro começamos com 5 quilómetros cada um, que foram reduzindo até acabarmos o dia em 500 metros cada um.</p>
<p>E o que dizer do acampamento? (o melhor que encontrámos com o cair da noite) – uma trincheira numa jazida de patas de yak e outras  partes ósseas de um rebanho defunto.</p>
<p>&#8211; Mas aqui? Vou ter pesadelos&#8230;</p>
<p>A pergunta tinha sido totalmente desnecessária, não havia outro sítio abrigado do vento, e com ou sem pesadelos nocturnos,  seria ali o nosso acampamento para a noite.</p>
<p>Montámos a tenda, cozinhámos e fomos dormir sem maiores entusiasmos.</p>
<h2>Do acampamento das patas de yak ao lago Sassyk Kul</h2>
<p><em>Dia 702 -11.10.2013</em></p>
<p><em>31.70 kms</em></p>
<p><em>Acampados a 3836 msnm</em></p>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2356" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/IMG_2646.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2356" alt="IMG_2646" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/IMG_2646.jpg" width="768" height="547" /></a></p>
<p>Na noite passada não houveram pesadelos afinal.</p>
<p>&#8211; Temos companhia! Diz o Nuno.</p>
<p>Uma carita com ranho a escorrer pelo nariz e olhos curiosos, espreitou para dentro da tenda, onde eu estava a arrumar as coisas e a preparar-me para arrancar, já depois do pequeno almoço tomado.</p>
<p>Estendo-lhe a mão para o cumprimentar e o pequenito estende-me a sua para retribuir o cumprimento que é complementado por dois gestos que simbolizam a forma sentida como as gentes da Ásia Central se cumprimentam: o levar da mão direita ao peito seguido por um ligeiro debruçar do torso. A sua mão é tão pequenina que transforma estes dois  gestos em algo maior e mais profundo. Por trás dele aparecem o irmão e a mãe. Uma senhora pequenina com ar frágil e olhos rasgados, herança possível dos antepassados mongóis. Trocamos as poucas palavras em russo que sabemos&#8230;não dá para mais e com o final da conversa breve, parecem contentar-se em ver-nos a arrumar as coisas.</p>
<p>Olho para o casario isolado, na distância, de onde vieram.  Luz não deve haver, televisão e rádio, pouco provável&#8230;como passarão o tempo? Como serão as suas vidas? As crianças nem devem de ir à escola. Gostava de lhes oferecer alguma coisa, mas o quê?  Lembro-me que ando a carregar desde a Tailândia uma caixa de lápis de cor na ilusão de que me servirão para fazer desenhos quando estiver inspirada, ou aborrecida, mas o meu filão artístico tem andado escondido nas grutas da preguiça. Agarro nos lápis e num bloco de papel e faço um desenho desajeitado da família que tem o efeito mágico de os aproximar e de lhes libertar umas quantas gargalhadas do peito. Como um simples acto pode proporcionar a intimidade e a partilha que a falta das palavras nem sempre permitem? Depois  do desenho feito agarrei na caixa de lápis e no bloco e ofereci-lhos.  Aceitaram e nos seus olhos transpareceu a alegria sincera. Agradeceram e convidam-nos para ir beber chá, mas o vento estava tão forte que decidimos não aceitar e seguir.</p>
<p>Passamos por Alichur, uma povoação assinalada no nosso mapa, onde nas margens de um rio brotam algumas casas e algumas pastagens. Parece que aqui se come bom peixe frito. O rio é pouco profundo e com bastante corrente &#8211; estranho, de onde virá o peixe então? Deixamos a experiência culinária para outra altura,afinal isto é terra de ovelhas, não de peixe.  Os camionistas vindos do passe de Culma (numa das fronteiras com a China) não deixam escapar a oportunidade , no entanto. Alinham os seus veículos imensos à porta dos pequenos restaurantes de beira da estrada e ali se congregam, numa reminiscência moderna aos antigos comerciantes da rota da seda.</p>
<p>É certo que muito mudou desde que os Portugueses, com a descoberta da passagem marítima para a Índia, tornaram pouco rentável,  quase obsoleto, o transporte e a  troca de bens em longa distância na grande massa de terra que é a Eurásia, mas num sentido moderno, as trocas comerciais continuam bem vivas  e hoje, mais do que nunca, com os camelos substituídos pelos camiões TIR, os bens circulam de país para país, como sempre circularam desde séculos imemoriais. Estes condutores, os nossos companheiros, os gigantes gentis,  ganham o estatuto de heróis porque as estradas que percorrem são traiçoeiras e perigosas.</p>
<p>Depois do almoço à saída de Alichur, onde dois miúdos reguilas se juntaram a nós, devorando praticamente o nosso saco de biscoitos e bolachas,  terminando as exigências com um pedido de fotos para as quais fizeram poses coreografadas, seguimos por uma estrada ondulante que ora nos protegia do vento, ora nos expunha aos seus bafos.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2347" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230856.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2347" alt="P1230856" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230856.jpg" width="768" height="513" /></a></p>
<p>A meio da tarde chegámos a um lago hipnótico azul turquesa com o céu reflectido nas suas águas – o Sassyk Kul. O nome quer dizer o lago mal cheiroso, mas depois de umas &#8220;snifadelas&#8221; profundas  concordámos  que não nos cheirava a nada e decidimos que merecíamos um dia curto no acampamento cénico.</p>
<p>Empurrámos as bikes cerca de 800 metros até chegar a uma parte abrigada nas margens do lago.</p>
<p>&#8211; “O que é este cheiro” &#8211; pergunta o Nuno?</p>
<p>-“Ó não! O lago mal cheiroso”!  Respondo, percebendo tarde de mais o odor  abundante  a ovos podres.</p>
<p>&#8230;e outro problema: não tínhamos água. O lago estava visto, seria uma fonte inútil.</p>
<p>Decidimos acampar mesmo com o mau cheiro. Eu fiquei a montar a tenda enquanto que o Nuno à procura de água.</p>
<p>Tenda  montada. Uma hora. Duas horas. Quase três horas&#8230; mas o que é que aconteceu ao Nuno que nunca mais aparece?</p>
<p>Olho ansiosamente a linha prateada que é a estrada, o sol já desaparece por trás das montanhas,  estou rodeada por sombras, tons azuis rosados do final do dia e o frio. Lentamente a sua silhueta define-se, primeiro um ponto sem forma em movimento, depois, um ciclista definido &#8211; um suspiro de alívio.</p>
<p>&#8211; Então amor? Pensava que te tinhas perdido.</p>
<p>&#8211; Não, mas não encontrava água em lado nenhum.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2349" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230913.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2349" alt="P1230913" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230913.jpg" width="768" height="432" /></a></p>
<p>Olhei para as garrafas que o Nuno tinha levado para encher de água que estavam agora cortadas e cheias de gelo. O meu olhar desviou-se depois para a mala do guiador com a nova função de reservatório de gelo. Fizemos cálculos mentais, cerca de três litros -não iríamos passar sede. Fogões ao máximo, água derretida, e água suficiente para o jantar e para o pequeno almoço da manhã seguinte.</p>
<p>Adormecemos com os narizes já acostumados ao cheiro de ovos podres e o vento adormece connosco.</p>
<h2>Do lago Sassykul ao ribeiro congelado</h2>
<p><em>Dia 703 -12.10.2013</em></p>
<p>31.60 kms</p>
<p>Acampados a 4046 msnm</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2350" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230928.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2350" alt="P1230928" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230928.jpg" width="768" height="513" /></a></p>
<p>Deixámos o acampamento com um ligeiro problema logístico: não tínhamos mais água. Empurrámos as bikes de regresso à estrada, o que dada a altitude (acima dos 4000 metros) foi tarefa que nos consumiu as calorias ingeridas no pequeno almoço.</p>
<p>O vento, ao que parecia, não tinha ainda despertado do seu sono.</p>
<p>Seguindo quase paralela à estrada principal havia uma estrada abandonada, interrompida em partes pelas as enxurradas de água do degelo ou algum outro mau humor do tempo.  Parecia um poema visual:  da linha cinzenta prateada, que era a estrada, brotavam pequenos arbustos secos amarelados e esbranquiçados &#8211;  um êxodo estático de seres redondos, uma floresta irrompida no alcatrão, uma fuga falhada de uma estrada que já não vai a lado nenhum e dos arbustos a darem-lhe vida mas igualmente incapacitados de escaparem, ou tão somente a metáfora da vida que é infinitamente maior do que a efemeridade das criações humanas que o tempo torna inúteis&#8230;</p>
<p>Era dia de surrealidades imagéticas. Um lago de sal. Uma estrada em forma de gráfico. Uma casa semi-abandonada de onde saiu uma pessoa&#8230;um fantasma talvez.  As formas rectilíneas dos camiões TIR em movimento lento sobre a estrada “gráfico” e as montanhas  arredondadas.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2348" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230859.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2348" alt="P1230859" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230859.jpg" width="768" height="513" /></a></p>
<p>O vento desperta rabugento.</p>
<p>Passamos finalmente por um ribeiro pouco profundo e com pouca água. Desço a ribanceira com três garrafas debaixo do braço,  com o semblante no rosto dos perdidos no deserto à procura de água&#8230;encho as garrafas com um líquido amarelado, cheio de sedimentos, o qual espero não ter que chegar ao ponto desesperado de ter que ingerir.</p>
<p>Quando regresso à estrada o Nuno recebe as minhas garrafas de água com entusiasmo.</p>
<p>&#8211; O que é isso? Fizeste xixi para dentro das garrafas?</p>
<p>&#8211; Muito engraçadinho. Estás-te a rir, mas a situação é séria, não há água em lado nenhum&#8230;se a coisa continua assim, é mesmo xixi que vamos ter que beber para sobreviver.</p>
<p>&#8211; Não sejas tonta&#8230;se não encontrarmos água é só mandar parar um camião.</p>
<p>(Pois&#8230;)</p>
<p>Seguimos sem água e,  felizmente, sem sede, por mais umas horas. A estrada piorou, transformando-se numa linha branca e poeirenta que nos sacudia o corpo. O vento não nos dava tréguas.</p>
<p>Já seriam quase umas três da tarde quando avistámos um ribeiro substancial onde enchemos as garrafas com água que ainda assim continuou meio amarelada e com sedimentos. Avançámos mais uns quilómetros e outro ribeiro, mas este de águas limpas e transparentes. “Não há fome que não dê em fartura”. Decidimos acampar nas suas margens que estavam abrigadas do vento cada vez mais forte. Assim que o sol se pôs o frio tomou conta do espaço vazio entre as montanhas e o céu. Decidimos cozinhar dentro da tenda e deixar a lavagem dos pratos de dos tachos para os despertares da manhã seguinte.</p>
<h2>Do ribeiro congelado às Termas de Jelondi</h2>
<p><em>Dia 704 -13.10.2013</em></p>
<p>43 kms</p>
<p>Alojados a 3513 msnm</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2361" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230975.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2361" alt="P1230975" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230975.jpg" width="768" height="513" /></a></p>
<p>Provavelmente a noite mais fria das Pamir: -15. Despertámos de manhã com o silêncio. Tínhamos adormecido com o som da água a saltitar entre as pedras que de manhã estava ausente. Quando espreitámos pela tenda, percebemos porquê: o ribeiro tinha congelado e o seu leito estava coberto por uma crosta grossa de gelo impressa com formas geométricas.</p>
<p>Enfrentámos o último grande passe das Pamir a 4300 metros. A estrada estava em mau estado e o vento continuava a empurrar-nos no sentido inverso ao que pretendiamos avançar. Já não há música que ajude a aguentar esta ventania. Pedala-se com resignação mais do que com entusiasmo.</p>
<p>Chegamos ao passe. Não há nada marcante para fotografar, nem um animal de parque de diversão, por isso fotografa-mo-nos aos dois. Sentimos um misto de alegria e tristeza – vamos deixar para trás a expansão árida das Pamir e pela frente as Pamir apertadas do desfiladeiro do rio Gunt.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2358" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/IMG_2722.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2358" alt="IMG_2722" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/IMG_2722.jpg" width="768" height="546" /></a></p>
<p>Maria e Zigor, o casal de amigos e cicloturistas espanhóis que tínhamos conhecido em Kunming, na China, tinham-nos dado a que é possivelmente a melhor dica, de entre as muitas que nos deram, das Pamir – “Não perder as termas de Jelondi”.</p>
<p>E a Jelondi  chegámos no final do dia.  O edifício, que tinha também alojamento, era um misto entre um sanatório com ares de hospital psiquiátrico e o hotel do “Shinning”, mas as piscinas termais com água quente, que nos rejuvenesceram o corpo e o espírito e fizerem desejar que todos os dias de ciclismo terminassem assim afastando quaisquer receios que o Jack Nickolson aparecesse de algum canto escuro de facalhão na mão a correr atrás de nós.</p>
<p>Dormimos que nem os anjos que não somos.</p>
<h2>Das termas de Jelondi  a Ver</h2>
<p><em>Dia 705 -14.10.2013</em></p>
<p><em>67.50 kms</em></p>
<p><em>Alojados a 2947 msnm</em></p>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2355" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1240130.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2355" alt="P1240130" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1240130.jpg" width="768" height="513" /></a></p>
<p>&#8211; O que quer que faças, não uses a casa de banho. Disse o Nuno depois de ter feito o que me dizia agora para não fazer.</p>
<p>Como a casa de banho era fora do hotel, tínhamos cortado a parte de cima a uma garrafa de água para que servir de penico, mas na manhã seguinte quando o Nuno foi à casa de banho para a despejar, teve uma surpresa (as casas de banho na Ásia Central competem com as chinesas e as indianas pelo estatuto de piores do mundo). Sem recorrer a muitos detalhes, porque tenho a sorte de não a ter a utilizado, usando a descrição que me foi feita pelo Nuno, imaginem uma latrina que pode ser utilizada não por uma, não por duas, mas por três pessoas lado a lado e ao mesmo tempo (com a perninha a roçar e tudo se se tiver de fazer o serviço que requer o agache). Para completar o quadro dantesco, o espaço reservado aos dejectos estava a transbordar&#8230;mais não digo que julgo ser desnecessário.</p>
<p>Deixamos o hotel nos ares mais perfumados da estrada que nos aguardava pela manhã. Seguimos no nosso &#8220;downhill&#8221; merecido. Precisávamos de comprar alguns mantimentos, incluindo pão.  Os mantimentos são fáceis de encontrar, sobretudo agora que a  estrada é um aglomerado contínuo de povoações, mas pão não parece vender-se nas mercearias e por isso vamos tentando a nossa sorte e continuando a  perguntar.</p>
<p>Eventualmente alguém nos aponta para uma casa a uns 100 metros da estrada. Deve de ser a padaria. O Nuno dirige-se à casa e regressa  com dois pães enormes redondos acabados de tirar do forno.</p>
<p>&#8211; Não me deixaram pagar pelo pão e querem que almocemos com eles. Parece que estão a celebrar alguma coisa&#8230;</p>
<p>Já era hora de almoço e decidimos aceitar.</p>
<p>Em redor da casa parecia estar congregada a aldeia inteira. A um canto, que parecia ser o canto das mulheres, um &#8220;wok&#8221; gigante sobre chamas onde uma sopa amarela fervia.  Apertámos as mãos a umas quantas pessoas,  depois veio um menino com um bule com água quente e uma toalha para que lavássemos as mãos e um senhor que saiu da casa com uma toalha de plástico e umas almofadas que pôs debaixo de uma árvore. Alguém trouxe biscoitos e bombons, pão, um bule com chá e chávenas. Alguém nos agarrou no braço e nos fez sentar em redor da toalha. Quando estávamos já sentados veio outro alguém com duas taças de sopa com grandes nacos de carne de carneiro, batata e cenoura a boiar e a insistir que comêssemos. Não fizemos cerimónias, mas era estranho estar a comer com audiência de pé à nossa volta sem mais ninguém a acompanhar-nos. Entretanto juntou-se  ao piquenique um senhor que  tinha estudado em Osh (foi o único que percebemos do que nos dizia apesar de ter falado o tempo inteiro). Nem bem a sopa ia a meio já o senhor mandava um berro a uma das raparigas e mais nacos de carne e mais líquido eram adicionados às nossas taças. Entretanto apareceu uma rapariga que falava um pouco de inglês e no seu entusiasmo nervoso conseguiu-nos explicar que estavam a celebrar o Curban Bairran, uma data festiva muçulmana. Disse-nos também que  era uma honra terem-nos como convidados. Retribuímos: &#8211; a honra era nossa, e se ela podia traduzir e passar os nossos sinceros agradecimentos ao anfitrião. Depois juntou-se outro homem que nos queria convencer a dormir em sua casa. – “Dormir? Agora? Mas é meio dia!” O senhor é insistente, mas declinamos. Entretanto aparece um saco de plástico cheio de sopa, mais pão, rebuçados e biscoitos. As coisas que estavam em cima da toalha desaparecem e a toalha é dobrada. Agradecemos e despedi-mo-nos da família, preparando-nos para seguir caminho. O senhor, que afinal era um vizinho, continua a insistir que durmamos na sua casa mas eventualmente percebe que a sua causa é uma causa perdida. Seguimos finalmente, não sem antes nos porem mais coisas no saco da sopa e dos rebuçados.</p>
<p>A famosa hospitalidade Pamir&#8230; ( e o dia ainda não tinha terminado).</p>
<p>Ao final da tarde, quando buscávamos sítio para montar a tenda  encontrámos um casal de ciclistas sentados em frente a uma paragem de autocarro agarrados a um Kindle. Eram polacos recém casados &#8211; o Yorek e a Agata. Estavam viciados num livro – que andavam a ler ao mesmo tempo &#8211; e não resistiram usar a pausa da tarde, para lerem mais uns capítulos.</p>
<p>Conversa vai, conversa vem e, entretanto juntou-se a nós um rapaz jovem e um senhor de mais idade. Os polacos falavam um pouco de russo e a coisa acabou com um convite para passarmos a noite em sua casa (eram pai e filho).  Empurrámos as bicicletas até à casa da família pelo meio dos campos. O filho, o Nazim, falou-nos um pouca da sua vida entre a Rússia, onde trabalhava na construção civil, e os seus regresso a a casa no final dos Verões para trazer dinheiro à família e para ajudar no trabalho dos campos. Estava fascinado com a nossa forma de vida nómada. Não conseguia entender porque é que alguém juntava dinheiro para viver em cima de uma bicicleta em vez do o usar para comprar um carro ou uma casa&#8230;mundos à parte que se tocam. Como é que se explica a alguém que é isto que nos vai no coração? Que viajar, para nós, é tão importante como é para ele o carro, a casa, os bens materiais, a segurança, aos quais no seu mundo nem sempre é fácil ter acesso.</p>
<p>A noite de partilhas e descobertas mútuas acabou com as mulheres da casa, numa risada despegada, a desfazerem a pilha de colchões, cobertores e edredons, que chegava até ao tecto, para nos fazerem  a cama na sala forrada a tapetes onde tínhamos sido previamente empanturrados com tanto pão acabado de fazer, barrado com manteiga, guisado deliciosos de cabrito com batatas e cenouras, chá, biscoitos e bombons que mal nos conseguíamos mexer de tão inchadas que estavam as nossas barrigas.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2352" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1240102.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2352" alt="P1240102" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1240102.jpg" width="768" height="432" /></a></p>
<p>Adormecemos os quatro debaixo dos edredons quentes. Durante a noite, as nossas bexigas estiveram ocupadas a processar os litros copiosos de chá que ingerimos, e  não nos restou outro remédio senão fazer o passeio nocturno e frio até à retrete da família, que à boa moda antiga consistia num buraco na terra coberto com duas tábuas de madeira que exigiam um cálculo preciso do posicionamento dos pés sob o risco de falhando os cálculos se ir parar a profundidades pouco prazenteiras.</p>
<h2>De Ver a Khorog</h2>
<p><em>Dia 706 -15.10.2013</em></p>
<p><em>65.30 kms</em></p>
<p><em>Alojados a  2144 msnm</em></p>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2354" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1240116.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2354" alt="P1240116" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1240116.jpg" width="664" height="459" /></a></p>
<p>De manhã já com tudo preparado para a saída e sem esperar por mais generosidades fomos oferecidos um pequeno almoço tradicional de pão e chá com manteiga na divisão da casa destinada à cozinha.</p>
<p>Com o pequeno almoço tomado, levaram-nos para o centro da casa &#8211; a divisão mais importante, na qual nos dias mais frios de inverno ou  de cerimónias a família se reúne. Do tecto a única janela existente na divisão – chorkhona &#8211; a janela tradicional das casas pamiris formada por sete quadrados concêntricos de madeira finamente talhada, que representam os quatro elementos principais  Zoroastras: a terra, a água, o ar e o fogo, este último coincidindo com o ponto mais alto e o primeiro a ser tocado pelos raios de sol. No centro da sala o pilar de madeira que simboliza o Profeta. Foi nessa sala onde nos ofereceram mais pão acabado de tirar do forno para levarmos connosco. Fizemos os nossos agradecimentos sentidos e despedimo-nos com um aperto no coração e com a sensação de que tínhamos vivido algo muito especial, levando connosco infinitamente mais do que tínhamos deixado.</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2342" data-imgid="2353" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1240114.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2353" alt="P1240114" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1240114.jpg" width="768" height="513" /></a></p>
<p>Seguimos outono abaixo, avançando rumo a Khorog. Era um outono que nos assaltava os olhos com os contrastes das árvores amarelas, o rio azul turquesa, as montanhas Pamir transformadas em pilares de sedimentos de vários tons,o céu ciano e as casas pamiri no seu esoterismo escondido entre paredes. Uma estrada onde maçãs apareciam como ofertas das mãos de estranhos que se assomavam à nossa  frente, onde os “assalmalecums”  eram proferido a alta voz seguidos por incontáveis ofertas de chói (chá), que sobretudo tivemos que declinar.</p>
<p>Chegámos a Khorog a meio da tarde, nos primeiros céus cinzentos da nossa travessia das Pamir. Khorog deixou-nos um trago semi-amargo como destino final desta etapa grandiosa e solene. Uma cidade metida no meio das montanhas na confluência de três rios e cujo braço parece estender-se ao país vizinho – o Afganistão, mesmo ali ao lado, na outra margem do rio Panj.  Khorog é a capital da região autónoma de Gorno Badashkan, mas o aglutinado pouco coerente de edifícios soviéticos e pós soviéticos que se poderia descrever como “neo-classico-plástico-bera”, dificilmente faz juz  à região da qual é capital.</p>
<p>Depois de uns dias de descanso, seguiríamos rumo a Dushanbe, para tratar dos quatro vistos pendentes. Com as Pamir pelas costas, o mais duro das nossas pedaladas estava terminado&#8230;ou assim esperávamos (mas nem sempre as coisas são como se esperam).</p>
<p>Na próxima crónica histórias dos nossos últimos quilómetros no Tajiquistão.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>O Diário das Pamir – De Sary Tash a Murgabe (Parte I)</title>
		<link>https://globonautas.net/o-diario-das-pamir-de-sary-tash-a-murgab-parte-i/</link>
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		<pubDate>Thu, 12 Dec 2013 17:57:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Histórias da estrada]]></category>
		<category><![CDATA[Tajiquistão]]></category>

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		<description><![CDATA[Dou comigo a amaldiçoar os russos e as sua maldita estrada e  a minha maldita carga. Malditos, malditos, malditos. Um ziguezague tortuoso, entre calhaus escorregadios e uma inclinação que parece que a bike me vai cair em cima – viva a gravidade.]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<h2> <b>As Pamir</b></h2>
<p><a data-postid="fsg_post_2227" data-imgid="2304" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/IMG_2494.jpg"><img class="size-full wp-image-2304 alignnone" alt="IMG_2494" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/IMG_2494.jpg" width="768" height="512" /></a></p>
<p><em>Em Outubro de 2013 fizemos uma das etapas mais antecipadas da nossa viagem: as Pamir. Tudo ali  prometia ser grande &#8211; o tempo, o silêncio, as montanhas, a altitude, o frio, o vento, a aventura&#8230;seguíamos nas passadas de Alexandre o Grande, Marco Polo, das caravanas da Rota da Seda, dos aventureiros soviéticos e britânicos quando ali travavam uma espécie de guerra fria delimitando fronteiras e poderes nas montanhas que definiam os seus territórios imperiais nos finais do século XIX.</em></p>
<p><em>“O tecto do mundo” – disseram os persas. “O tecto do mundo” – dizemos nós! Com um passe a 4665 metros, e com a denominação de segunda estrada internacional mais alta do mundo, mantendo-se por longos quilómetros acima dos quatro mil metros, pode dizer-se que a estrada que atravessa as Pamir não é uma estrada qualquer. As Pamir  também não são umas montanhas quaisquer. São colossos que resultam da união das cordilheiras dos Himalaias, do Hindukush, de Tian Shan, Karakorum e Kunlun que se encontram por sua vez entre as cordilheiras mais altas do planeta. Os seus picos mais altos – Comunismo e o Lenine, tocam os céus aos 7,495 e 7,134 metros respectivamente e o glaciar Fedchenko, com 77 quilómetros de extensão é o mais longo fora da região polar. Sim , “ o tecto do mundo” não é difícil de contextualizar aqui.</em></p>
<p><em>Aqui ficam extractos do que apontámos em diário. O relato do que foram os nossos primeiros dias nas Pamir &#8211; de Sary Tash, ainda no Quirguistão, até Khorog, no Tajiquistão.</em></p>
<h2><b>Sary Tash à terra de ninguém</b></h2>
<p><em>Dia 693 – 3.10.2013</em></p>
<p><em>32.8 kms</em></p>
<p><em>Acampados a 3,606 msnm</em></p>
<address><a data-postid="fsg_post_2227" data-imgid="2281" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230369.jpg"><img class="size-full wp-image-2281 alignnone" alt="P1230369" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230369.jpg" width="768" height="513" /></a></address>
<p>Desperto com um friozinho na barriga, sentindo o peso reconfortante e seguro dos edredons artesanais da cama estreita da casa de hóspedes Eliza. Nos próximos dias pouco saberá tanto a conforto e segurança como esta casa simples por onde entram os raios do dia mas não o frio, ou o vento&#8230;</p>
<p>O friozinho da barriga é bom sinal. Afinal, depois de tanto tempo a viajar, os sentidos continuam alerta &#8211; desafios novos abraçam-se com entusiasmo infantil, ainda&#8230; A luz do dia brilha lá fora como um despertar, uma chamada para a vida. Dou um beijo de bons dias ao Nuno.</p>
<p>&#8211; Pronta para o desafio?</p>
<p>– Pronta!</p>
<p>Cargas feitas,  pequeno almoço tomado, dois ou três dedos de conversa com o Steve e o Martin, dois ingleses ali alojados &#8211; um fotógrafo, o  outro, antropólogo,  de viagem pela região recolhendo imagens e informação para um livro sobre as fronteiras da antiga União Soviética.</p>
<p>As burras estão carregadas&#8230;demasiado carregadas. A frustração é visível nos olhos do Nuno – não importa quando, como, porquê, fazemos sempre o mesmo erro. Os supermercados de Osh estavam tão bem recheados&#8230;tão bem. Chocolate em pó, &#8220;nutella&#8221;, queijo, cereais, café, frutos secos, bolachas em pacote, afinal vão passar-se muitos dias antes de voltarmos a por os olhos e dentes nestes mimos, não é? E mais arroz, batatas, pão, vegetais, frutas , água &#8211; coisas essenciais. Estamos tão carregados e temos tanta subida pela frente&#8230;que estupidez, nunca mais aprendemos.</p>
<p>O Nuno sente-se recuperado depois da operação em Bisqueque. Eu sinto-me recuperada depois de um desarranjo intestinal –outro, em Osh. Pela frente: as Pamir. Montanhas brancas, uma estrada prateada e o espaço entre elas feito de pastagens vazias, vento suave, o silêncio que a minha cabeça interrompe com a música “Space Oddity” do David Bowie em repeat:</p>
<p>&#8220;ground control to Major Tom<br />
take your protein pills and put your helmet on<br />
(ten) ground control (nine) to major Tom (eight)<br />
(seven, six) commencing countdown (five), engines on (four)<br />
(tree, two) check ignition (one) and may gods love be with you (…)<br />
Now it&#8217;s time to leave the capsule if you dare&#8221;</p>
<p>Sim saímos da cápsula e viajamos no espaço e no tempo em cima de duas bicicletas ultra carregadas&#8230;o meu &#8220;shuffle&#8221; cerebral  anda bem sintonizado hoje.</p>
<p>Controle fronteiriço para saída do Quirguistão. Passaportes entregues que desaparecem com o oficial por um edifício dentro. Há um &#8220;cocker spaniel&#8221; simpático, mas totalmente fora de contexto,  que em vez de nos cheirar as malas anda à cata de festas. Faço questão de lhe fazer o favor, não deve receber muitas por estes lados e parece feliz.O  guarda regressa com os passaportes, temos que ir a outro edifício. Está bem –vamos. Sigo sozinha porque o Nuno recebe uma chamada da mãe natureza. No outro edifício há um oficial gordo e bonacheirão. Interrompo a sua sessão televisiva, mas não parece aborrecido. &#8211; E o marido onde está? Aponto para o canto onde o Nuno se foi aliviar, mas parece não perceber. – O marido onde está? Faço sinal de que foi fazer xixi (tchhhhh com as mãos a parecer que seguro uma pilinha imaginária). Ri-se o senhor oficial, acha piada e olha para mim com um sorriso maroto. O Nuno chega e as simpatias formalizam-se, ainda bem.</p>
<p>&#8211; “Ruski,ruski&#8230;ruski&#8230;” &#8211; seja lá o que nos diz, não entendemos &#8220;niet&#8221;..</p>
<p>&#8211; “Rachmat, spaciba, thank you”&#8230; e até à próxima &#8211; é o que respondemos quando nos devolve os passaportes com o carimbo de saída.</p>
<p>Seguimos estrada fora nos vinte e tal quilómetros em terra de ninguém até ao Tajiquistão.</p>
<p>&#8230;mas não chegamos. O sol já não aquecia e o vale e as sombras do final do dia ditaram o momento de assentar arraiais para a noite. Saímos da estrada e metemo-nos pelo nada adentro até nos parecer, para quem passasse na estrada, que nós e a nossa tenda não fossemos mais do que pontos abstractos.</p>
<p>Depois da fronteira tínhamos sido seguidos por dois cães (sim também distribui festas por aqui). Um parece não ter um olho &#8211; fica o “Pirata”&#8230;a sua companheira, mais arisca, fica a “Quirguiz&#8221;. A comida que cozinhamos essa noite sabe-nos mal – arroz com vegetais. Nem os cães lhe acham muita piada e desaparecem, provavelmente de regresso ao posto fronteiriço. Adormecemos embalados pelas estrelas, o frio, o silêncio e um par de barrigas pouco satisfeitas.</p>
<h2><b>Do acampamento na terra de ninguém ao sinal do yak</b></h2>
<p><em>Dia 694 – 4.10.2013</em></p>
<p><em>21.20 kms</em></p>
<p><em>Acampados a 4,077 msnm</em></p>
<address><a data-postid="fsg_post_2227" data-imgid="2283" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230413.jpg"><img class="size-full wp-image-2283 alignnone" alt="P1230413" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230413.jpg" width="800" height="494" /></a></address>
<p>O sono da noite passada foi leve e pouco regenerador. Acordei várias vezes com dores de cabeça. O Nuno queixou-se do mesmo. O ritmo lento de subida que planeámos para nos aclimatizar não parece estar a fazer grande efeito &#8211; é para que não nos esqueçamos que andamos afinal por alturas pouco humanas.</p>
<p>Percebemos também porque nos tinha sabido mal o jantar da noite anterior: a água com que cozinhámos, oriunda de um rio que atravessámos, era amarga . Só nos resta esperar que a água que vamos encontrar pelo resto das Pamir não seja da mesma nascente&#8230;</p>
<p>O sol reapareceu. Acampados no sopé de uma montanha a nossa tenda foi o último lugar do vale a receber a luz e o calor dos seus raios. Parecemos folhas de chá antes da água quente lhes libertar o sabor – encolhidos e mirrados. Adiamos até à última ter que por em que seja um centímetro de pele fora da tenda e dos sacos de cama, mas o sol estende finalmente os seus braços e o calor do seu abraço aquece-nos a tenda e os corpos. Saímos para o pequeno almoço e estamos prontos para enfrentar mais um dia.</p>
<p>Olhamos o relógio&#8230;11 horas?! O dia não vai render muito.</p>
<p>Hoje a música do shuffle mental é feita aos acordes do “Sobe, sobe, balão sobe” e subimos, mas não como balões. Estamos demasiado pesados e o Nuno, para evitar esforços traseiros, prefere empurrar a bike nas partes mais inclinadas&#8230;não são muitas &#8211; são as suficientes. A estrada alterna entre alcatrão carcomido e alcatrão inexistente.</p>
<p>Dois pontos na distância materializam-se em dois ciclistas: Emily e Max. Seguem rumo à China. Trocam-se dicas, mapas e desejos de muito vento pelas costas. E continuamos rumo à fronteira que não se avista e o pior (mal sabíamos nós) ainda estava para vir: subida da séria.</p>
<p>Dou comigo a amaldiçoar os russos e as sua maldita estrada e  a minha maldita carga. Malditos, malditos, malditos. Um ziguezague tortuoso, entre calhaus escorregadios e uma inclinação que parece que a bike me vai cair em cima – viva a gravidade. O ar não chega, a cabeça dói, o pingo escorre pelo nariz que por sua vez arde cada vez que lhe entra ar o frio pelas narinas. Malditos russos que não sabem fazer estradas. Maldita carga que pesa como os diabos. Mas o carneiro Marco-Polo gigante em cimento que assinala o passe (e o fim da maldita) a 4280 metros avista-se e de repente já nada é maldito. Faz-se mais um esforço até ao topo e as borboletas, as endorfinas, o fogo de artifício e todas essas coisas estranhas e maravilhosas que acontecem no interior do nosso corpo quando alcançamos algo difícil, libertam-se e soltam-se e tudo são maravilhas – até a estrada feita pelos russos e a carga. Vivam as subidas!</p>
<p>Na descida, mais dois ciclistas: Raz e Julian, ela belga e ele francês. Conheceram-se na estrada. O Julian tinha feito o “upgrade” de “backpacker” para cicloturista e a sua escolha de equipamento era interessante (há que fazer juz ao rapaz &#8211; não foi uma questão de escolha, foi o que conseguiu arranjar onde quer que tenha decidido mudar de meio de transporte, algures na Ásia Central) : uma pele de ovelha a fazer de colchão, uma caixa de plástico a servir de mala da frente, a mochila atada ao suporte traseiro e um sorriso de orelha a orelha. A conversa foi curta porque tínhamos que atravessar a fronteira e já o dia se escapava pelas cortinas da noite.</p>
<p>Mais um posto fronteiriço. Este cheio de militares com simpatias demasiado familiares para conforto. Um toca-me na cabeça e quer mexer-me nas pulseiras. Chega pra lá. Depois uma confusão com um carimbo no meu visto que se resolve com uns ” please” e vários encolher de ombros e, cá está, mais um carimbo. Siga, que já se faz tarde, montanha abaixo na trepidação de uma estrada com textura de telhado, o vento corta-nos a respiração e as opções de campismo abrigado. Acampamos no lado protegido de um sinal de cimento, outro, este com um yak gigantesco – parece que a única bicharada que vamos ver por estas paragens é precisamente esta – estátuas que parecem retiradas de um parque de diversão. Acampamos perto da estrada, contra a minha vontade, mas sem grandes alternativas. Noite fria e ventosa.  Agora com água decente,  a comida sabe-nos infinitamente melhor.</p>
<h2><b>Sinal do Yak ao Lago Karakul</b></h2>
<p><em>Dia 695 – 5.10.2013</em></p>
<p><em>55.20 kms</em></p>
<p><em>Acampados a  3,925 msnm</em></p>
<address><a data-postid="fsg_post_2227" data-imgid="2284" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230443.jpg"><img class="size-full wp-image-2284 alignnone" alt="P1230443" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230443.jpg" width="768" height="513" /></a></address>
<p>O sol, o sol, o sol&#8230;mais um dia de sol glorioso. Hoje não há bandas sonoras.  No seu lugar: “bandas” visuais &#8211; tudo o que vemos são rectas intermináveis a esquartejar  a paisagem curvilínea. Com a ausência do som, vemos tudo em alta definição e em “technicolor”, como um super poder ( hoje, talvez por isso, não exista espaço no meu cérebro para cantigas). E o silêncio! Um silêncio redutor&#8230;avassalador que as palavras não descrevem (como é que se descreve o silêncio?). É como se tivéssemos a capacidade de carregar no botão do “pause” e andássemos nesta paisagem cinematográfica onde a única coisa que se move somos nós dois e as nossas bicicletas. Não há nada, nem movimento, só nós. Como saber que isto é real?</p>
<p>O alcatrão regressa e cobre a estrada que ondula como um mar de ondas mansas por onde deslizamos sem grande esforço. A paisagem muda – a neve dos cumes desaparece e na sua ausência surgem montanhas prateadas carregadas com pedras da mesma cor. Depois surge um lago – um espelho de céu e montanhas que voltam a estar cobertas de neve – o Karakul, o mais alto do país e o mais alto daquelas montanhas.</p>
<p>E surge também uma aldeia branca caiada, onde regressam os sons e o movimento. A realidade, mas não muita, que por aqueles lados nada parece muito real. Onde andam as gentes? Os cães saboreiam os últimos raios do dia deitados na poeira compacta que é o chão, uma criança aparece montada na sua bicicleta ferrugenta para voltar a desaparecer. Loja, tem que haver uma loja. Precisamos de pão.  &#8211; Magazine? Magazine? (loja?loja?) os dedos pequeninos das crianças apontam para uma casa fechada. Voltamos a repetir a pergunta, desta vez a uns velhos, e os seus dedos enrugados apontam para o mesmo sítio. Vamos para a casa fechada e ali esperamos até que um senhor com chaves nos abrisse a porta do estabelecimento comercial. Uma prateleira longa, nela, os bens essenciais sem hierarquia funcional: biscoitos, velas, embalagens de detergente para lavar a louça, batatas, rolos de papel higiénico, rebuçados, arroz, pilhas, meias, shampoo&#8230;o pão que buscávamos vem de outro lado nas mãos de uma criança que desaparece a correr loja fora e reaparece uns minutos depois loja dentro. Está duro, mas não temos escolha. Levamos também dois rolos de papel higiénico – ou lixa número quatro, a denominação correcta. Esta malta deve ter o rabo mais esfolado da história da humanidade – que brutalidade!</p>
<p><a data-postid="fsg_post_2227" data-imgid="2297" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230630.jpg"><img class="size-full wp-image-2297 alignnone" alt="P1230630" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230630.jpg" width="768" height="513" /></a></p>
<p>E regressamos à paisagem “tecnicolor em modo pause” para buscar acampamento nas margens do lago Karakul.</p>
<p>Armo-me naquilo que não sou: aventureira de águas frias. Um banho ao cair do dia num lago azul turquesa, sem nada à minha volta. Que ideia tão romântica e&#8230; asseada.</p>
<p>&#8211; Vai tu – diz o Nuno. Eu fico a montar a tenda.</p>
<p>Chinelos de enfiar no dedo, toalha no ombro e &#8220;necessaire&#8221;, sigo cheia de confiança e certezas que duram uns meros metros até chegar a uma parte enlameada que me separa do lago e que não tinha percebido estar ali. Enterro os pés na lama (que se afundam bem para lá da linha de conforto, mas ainda assim sigo, quanto mais não seja porque agora tenho que ir lavar os pés). No lago finalmente. A água é fria (parece que tenho navalhas a cortarem-me as pernas) e só consigo avançar até ter água pouco mais do que acima dos joelhos. O sonho do mergulho dissolve-se. Contento-me com uma lavagem à gato. O que não parece dissolver é o sabonete, esfrego, esfrego e nada, a espuma não aparece. Depois de me secar sinto a pele seca &#8211; está cheia de salitre. Desgraça. Regresso à tenda com os pés cheios de lama, e o corpo cheio de sal. Mergulhos em lagos pristinos onde se sai de corpo e alma refrescados&#8230;é coisa de filmes de sobrevivência e livros de cowboys.</p>
<p>-Então esse banho?</p>
<p>-Uma experiência maravilhosa, nem sabes o que perdeste. O que vai ser o jantar hoje?</p>
<p>Mais fácil comer e dormir e deixar o lago em paz na paisagem. As dores de cabeça desapareceram (coincidência, ou não, ao menos isso).</p>
<h2><b>Do Lago Karakul ao início do passe de Akbaital</b></h2>
<p><em>Dia 696 – 6.10.2013</em></p>
<p><em>49.20 kms</em></p>
<p><em>Acampados a  4,238 msnm</em></p>
<address><a data-postid="fsg_post_2227" data-imgid="2288" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230578.jpg"><img class="size-full wp-image-2288 alignnone" alt="P1230578" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230578.jpg" width="768" height="513" /></a></address>
<p>Podia ficar viciada nestes despertares: sol, silêncio, acordar ao lado do homem que amo, abrir a tenda e ter lá fora o mundo a espreitar para dentro  das nossas vidas a chamar-nos para o calcorrear.</p>
<p>Depois de três dias, parece que temos o ritmo marcado: despertar com os primeiros raios do sol. O Nuno &#8211; o corajoso das manhãs frias, é o primeiro a sair da tenda e a por a água a aquecer para o café do pequeno almoço (nesta manhã sentiu-se particularmente predisposto a fazer panquecas, que depois barrámos com &#8220;nutella&#8221; e bananas – tão bom ter o céu à volta e ter o céu na boca – estar rodeados de céu por todos os lados. Eu, no calor da tenda, arrumo os sacos de cama e os colchões. Depois da barriga cheia, arruma-se a tenda num esforço de equipa.  Fazemo-nos à estrada lá por volta das nove da manhã (já  conseguimos melhorar as médias de partida consideravelmente e perceber onde montar a tenda para que o sol a aqueça assim que a sua cabeça começa a espreitar deste lado do planeta).</p>
<p>A paisagem repete-se sem nunca ser igual. As estradas feitas linhas seguem rumo ao infinito. Na sua continuidade e nas possibilidades da sua simbologia brincamos aos fotógrafos, pouco mais precisamos de fazer que apertar o botão e a magia captada é quase imediata. Nada como uma estrada que se esvai na linha do horizonte para que as metáforas da estrada da vida e as suas possibilidades nos venham ao pensamento. Metáforas à parte a estrada segue e nós seguimos nela, no nosso lento pedalar&#8230;o nosso lento regresso a casa.</p>
<p>Mais um rio de águas cristalinas onde enchemos as garrafas e aproveitamos para lavar a roupa interior&#8230;as mãos querem sair-nos dos braços de tão fria que a água está.</p>
<p>Os almoços são sempre um momento aguardado nos nossos dias: o momento em que abrimos os alforges e pomos diante de nós as &#8220;deliciarias&#8221; que tanto nos amargam as pernas nas subidas, e claro, como quem não quer a coisa, o peso é sempre menos depois de mais uma refeição.</p>
<p>Começamos a parte suave da subida até ao passe de Akbaital o mais alto das Pamir a 4665 metros. Nesta parte da estrada vão-se vendo ruínas que relembram a efemeridade do esforço humano numa paisagem onde os elementos a tornam hostil à vida.</p>
<p>O dilema dos acampamentos instala-se também na nossa rotina. O Nuno, que por ele acampava o mais perto da estrada possível, e eu, o mais escondida, mesmo que para isso tenha que andar a puxar a bike montanha acima.  Na ausência de montanha que nos esconda, e mesmo na escassez de viaturas e de gente, estou determinada a manter a distância possível e empurro a bike até chegar ao sopé da montanha, sob os resmungos do Nuno que quer recusar acampar tão longe. Mas já se faz noite e eu já escolhi o sitio de pernoita, não há tempo para mais resmunguices.</p>
<p>Os ânimos da noite acalmaram com um arroz delicioso de lulas enlatadas que o Nuno preparou e o manto de noite escura, esburacado pelas estrelas, espalha o seu frio pelas montanhas &#8211; a deixa de que é tempo de ir para o saco de cama.</p>
<h2><b>Do início do passe de Akbaital ao planalto de Murgabe</b></h2>
<p><em>Dia 697 – 7.10.2013</em></p>
<p><em>43.60 kms</em></p>
<p><em>Acampados a  3,968 msnm</em></p>
<address><a data-postid="fsg_post_2227" data-imgid="2291" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230599.jpg"><img class="size-full wp-image-2291 alignnone" alt="P1230599" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230599.jpg" width="768" height="513" /></a></address>
<p>Isto das bandas sonoras tem que se lhe diga. A do dia de hoje começou nem bem tinha acordado. E nesta ocasião confesso que não consigo discernir nenhuma razão aparente – “Pó de arroz” do Carlos Paião?&#8230;no meio de uma montanha no Tajiquistão, ao amanhecer? Podia-me dar para pior, muito pior (mas o Nuno acha que estou a ficar doidinha).</p>
<p>Preparo o pequeno almoço – é a minha vez. Decidimos alternar: um dia cozinho eu, outro dia cozinha o Nuno. Mas os pequenos almoços confesso que me são particularmente dolorosos.</p>
<p>Mais um dia de sol. Parece que por aqui não existe outra coisa que não sol pelas manhãs – que assim continue.</p>
<p>Outra maldita! &#8230;mas o que é isto? 15%, 20%&#8230;o meu conta quilómetros vai doido, mas não tão doido quanto eu que bufo por tudo quanto é poro e  já amaldiçoei não sei quantas gerações de engenheiros russos e as suas santas mães – isto não são estradas, são escadarias! E mais a carga maldita que carrego nos alforges &#8211; está cada vez mais pesada. Mas quem é o doido que se mete nesta vida? São 3 da tarde e ainda só avançámos 9 quilómetros. Valha-nos o almoço e mais o sol e menos umas gramas.</p>
<p>No passe, mais um bicho de parque de diversão (não tomei nota qual era e agora também não me lembro). E na descida, no glorioso “downhill” uma paisagem lunar – ou será o planeta Marte? O céu de um azul tão intenso que doía só de o olhar. As montanhas com rasgos de ocre e amarelo seco. Vida aqui não existe, só aquela que como nós, está de passagem.  Nos primeiros quilómetros neste novo vale começamos a ficar preocupados porque tudo quanto é rio, jaz seco sem ponta de água. Como que por milagre, uns quilómetros depois, brota do leito de um rio, uma nascente de água, que nos acompanha em forma de ribeiro e no qual enchemos as nossas garrafas. Mais pura do que esta será difícil de encontrar.</p>
<p>O drama do acampamento volta a repetir-se, espaço não falta, mas canto que nos esconda sim. Estamos cansados e com pouco oxigénio na cabeça&#8230;é hora de mudar o disco, montar a tenda e preparar o jantar!</p>
<p>E depois, para ajudar aos ânimos é a vez dos fogões fazerem birra:  o “Primus” dá o berro e o “MSR” decide entupir. Um pouco de carinho e pelo menos o “MSR” regressa, ainda que muito lentamente, às suas funções – temos jantar (hoje, pelo menos)! Batatas, lentilhas, cenouras tudo cozido e depois misturado com tomate, pimento e cebola salteados. De barriga cheia, escondidos pelo escuro da noite as nossas preocupações sobre o acampamento perdem a razão de ser&#8230;prontos para mais uma noite debaixo das estrelas.</p>
<h2><b>Do altiplano de Murgabe a Murgabe</b></h2>
<p><em>Dia 698 – 8.10.2013</em></p>
<p><em>49.20 kms</em></p>
<p><em>Alojados a 3,891 msnm</em></p>
<address> <a data-postid="fsg_post_2227" data-imgid="2293" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P12305871.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-2293" alt="P1230587" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P12305871.jpg" width="768" height="429" /></a></address>
<p>Montanhas lunares, que o Nuno compara ao deserto de Wadi Rum na Jordânia. A estrada é plana e o vento empurra – dia de ciclismo perfeito. Mais três ciclistas que passam por nós no sentido contrário – Nicolas, James e Alex que nos recomendam a casa de hóspedes de Mansur Tulfabek, com garantias de que tem chuveiro de água quente (palavras mágicas). A estrada desce suavemente até  Murgabe.</p>
<p>Chegamos.</p>
<p>A primeira povoação com mais do que meia dúzia de casas surge por entre as montanhas suaves. A luz da tarde no branco das casas quadradas, algumas com barras de azul pintadas nos rodapés. Das chaminés liberta-se uma linha de fumo e os postes eléctricos, mais altos do que as casas, parecem pilares que seguram o céu caso ele decida desabar&#8230; Há um ar de fim de mundo por aqui, mas é o estoicismo destas gentes que ainda vai levando a melhor.</p>
<p>Encontramos a casa de hóspedes recomendada mas ninguém para nos receber. Abrimos o portão azul, deixamos as bicicletas dentro do pátio e vamos a pé até à vila em busca de mantimentos porque planeamos partir na manhã seguinte.</p>
<p>O bazar são contentores, pó e fumo embrenhados na luz do final do dia. Entramos e saímos. Cada contentor parece ter as mesmas coisas, mas com um olhar atento, outras coisas que o anterior não tinha. A nossa lista de compras vai-se riscando&#8230;crianças em triciclos, cães a sacudir as pulgas, gente com sacos de compras, cheiro a pão acabado de sair do forno &#8211; a beleza nem sempre se encontra nos sítios mais óbvios, sobretudo não num sítio saído de um cenário pós-apocalíptico, mas ela está lá, para quem a quiser ver.</p>
<p>Quando regressamos o senhor Tulfabek, assim como a família, estão de regresso. Recebem-nos com um aperto de mão e simpatia genuínos. A comida que nos preparam é simples mas deliciosa e o chuveiro, aquecido de forma manual, com o Sr Tulfabek a carregar baldes de água quente  para uma cisterna no telhado, sabe-nos ainda melhor.</p>
<p>Dormimos finalmente um sono tranquilo e merecido.</p>
<h2><b>Murgabe</b></h2>
<p><em>Dia 698 – 8.10.2013</em></p>
<p><em>Dia de folga</em></p>
<address><em><a data-postid="fsg_post_2227" data-imgid="2303" href="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230731.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-2303" alt="P1230731" src="http://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/12/P1230731.jpg" width="1024" height="532" /></a></em></address>
<p>Ficar ou não ficar? Gostamos de Murgabe e gostamos da pensão do Sr Tulfabek. O Nuno faz contas à vida e contas ao tempo. Podemos ficar mais um dia, mas teremos de abdicar ir pelo o vale de Wakham – levar-nos- ia mais tempo porque a estrada está em mau estado e menos um dia pode fazer toda a diferença entre dias de ciclismo relaxados até Dushanbe, ou não. E há roupa para lavar, diário para por em dia, duas ou três coisas para arranjar, pernas a pedir descanso&#8230;ficamos.</p>
<p>À tarde o Nuno vai de novo até ao bazar trocar dólares por dinheiro local &#8211; soms. Quando regressa, regressa feito milionário: tinham-lhe trocado os 200 dolares em notas de 5 mil soms e o molho que trazia nas mãos era tão volumoso que nos auto-intitulamos vencedores do &#8221; jack-pot&#8221;&#8230; já sabemos como é boa a sensação de ter uma &#8220;pipa de massa&#8221; nas mãos, mesmo que ilusória.</p>
<p>O Sr Tulfabek juntou-se a nós depois jantar. É um homem interessante com olhar de mel. Parece gostar tanto da nossa companhia como nós da sua. Conseguimos comunicar, ele no seu inglês quebrado e nós no nosso russo inexistente, da vida no Tajiquistão, da guerra recente, quando não chegava comida até às Pamir e se passava fome e frio&#8230;falou-se também da esperança, dos projectos de vida, da beleza da região. Depois, quando as nossas caras pouco mais eram do que contornos nas sombras  fomos dormir de alma cheia e com a sensação que viajar, muito mais do que ir, muitas vezes, também é ficar.</p>
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		<title>Fotos &#8211; Tajiquistão</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Dec 2013 12:12:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Fotos]]></category>
		<category><![CDATA[Tajiquistão]]></category>

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		<description><![CDATA[]]></description>
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<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2470/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2470-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="As primeiras dificuldades" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2482/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2482-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="As Pamir" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2494/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2494-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Estrada infinita" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2503/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2503-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Aldeia de Karakol" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230483/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230483-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Despertaes" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230523/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230523-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Lago Karakol" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230552/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230552-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Liberdade" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2516/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2516-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Cordilheira Pamir" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230600/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230600-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Sinais" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230544/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230544-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Reflexos esborratados" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2524/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2524-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Joana e a estrada" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230417/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230417-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Linhas divergentes" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2546/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2546-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Desertos" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230655/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230655-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2557/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2557-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="A estada M41" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230436/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230436-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2565/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2565-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Grão de areia" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2572/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2572-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Nómadas e rebanhos" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230653/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230653-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Civilização à vista" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230674/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230674-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Murgab" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230667/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230667-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="No bazar de Murghabe" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2589/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2589-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Bazar de Murghabe" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2626/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2626-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="A família Tulfabek" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2602/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2602-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Outros ciclistas" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2604/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2604-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Olhares" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2639/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2639-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Preferimos acampar..." /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2675/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2675-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Numa estrada abandonada" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2683/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2683-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Ziguezague" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230919/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230919-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Hotel para quê?" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2684/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2684-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="O caminho" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230974/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230974-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Rio congelado" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230896/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230896-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Contrastes" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2689/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2689-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2705/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2705-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="O último" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2721/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2721-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Agora é sempre a descer" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2727/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2727-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Casa típica Pamir" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2799/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2799-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Acolhimento caloroso" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2743/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2743-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Chegámos ao outono" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2755/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2755-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Ponte suspensa" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2778/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2778-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Outono" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2787/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2787-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Vale de Gunt" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2841/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2841-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Aldeia Afegã" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2835/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2835-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Escola Afegã" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2852/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2852-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Rio Panj" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2870/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2870-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Vertical" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2871/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2871-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Horizontal" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2902/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2902-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Acampamento com vistas para o Afganistao" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2885/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2885-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="&quot;Owrings&quot;" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2932/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2932-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Galhofas" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1230462/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1230462-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Nuno" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2937/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2937-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Encontos na estrada" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1240020/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1240020-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Sopa de carneiro" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2874/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_2874-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Como a vida" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1240043/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1240043-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="As Pamir" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1240124/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1240124-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Convivíos" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1240077/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1240077-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Serões quentes" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1240145/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1240145-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Seguir o outono" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1240163/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1240163-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Reflexos" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1240286/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1240286-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Separados" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1240290/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1240290-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Olhares" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1240332/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1240332-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Passeio nas encostas do vale Varzob" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_3018/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_3018-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Buzkachi" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_3002/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_3002-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Cavaleiro" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1240365/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1240365-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Vale tudo" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/img_2970-2/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/IMG_29701-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="De saída" /></a>
<a href='https://globonautas.net/fotos-tajiquistao/p1240492/'><img width="150" height="150" src="https://globonautas.net/wp-content/uploads/2013/11/P1240492-150x150.jpg" class="attachment-thumbnail" alt="Hospitalidade" /></a>

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		<title>Itinerário no Tajiquistão</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Nov 2013 11:33:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Joana Oliveira &#38; Nuno Pedrosa]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[A matemática da viagem]]></category>
		<category><![CDATA[Tajiquistão]]></category>

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		<description><![CDATA[De 4 de Outubro a 12 de Novembro de 2013
1364 kms pedalados]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Data de entrada: 4 de Outubro de 2013</strong></p>
<h2>Estatísticas</h2>
<p>Total dias: 40<br />
Dias de ciclismo: 25<br />
Dias descanso: 15<br />
Kms pedalados:1364<br />
Horas pedaladas: 116h 30m<br />
Km/dia (med): 55.4<br />
Altitude máxima: 4655m<br />
Desnível acomulado: 11913m<br />
Altitude/dia (med): 476m<br />
Noites em hoteis: 10<br />
Noites campismo livre: 15<br />
Noites com particulares: 15<br />
Custos/noite (med total p/p): € 2.1<br />
Custos diarios totais (p/p): € 10.50<br />
(Exclui vistos)</p>
<p>Furos: 1 (Nuno)</p>
<p>D634 Acampados perto do posto fronteiço – 21.2 kms<br />
D635 Lago Karakul – 55.2 kms<br />
D636 Perto de passo Akbaital – 49.2 kms<br />
D637 Junto a rio com yaks – 43.6 kms<br />
D638 Mansur homestay, Murghab – 49.2 kms<br />
D639 Descanso, Murghab<br />
D640 Antes do passo Naizatash – 48.3 kms<br />
D641 Antes de Alichur – 42.3 kms<br />
D642 Lago Sissykul – 31.7 kms<br />
D643 Antes do passo Koitezek – 31.6 kms<br />
D644 Sanatorium, Jelondi – 43 kms<br />
D645 Casa familiar, Ver – 61.5 kms<br />
D646 Pamir lodge, Khorog – 72.6 kms<br />
D647 ao D649 descanso, Khorog<br />
D650 Acampados com vistas para Afganistão – 41.6 kms<br />
D651 Casa do Maxe Paynura &#8211; 59.2 kms<br />
D652 Depois de fronteira com Afganistão – 65.3 kms<br />
D653 Acampados com vistas para Afganistão II – 28.3 kms<br />
D654 Homestay junto a ponte, Kalaikhum – 60.8 kms<br />
D655 Junto a casa abandonada – 42.6 kms<br />
D656 Final do desfiladeiro do rio Panj– 62.8 kms<br />
D657 Antes de Shuroabad – 29.8 kms<br />
D658 Depois de Kulyab – 53.7 kms<br />
D659 Hotel “dengoso” em Dengara – 81.9 kms<br />
D660 Hotel praça central, Nurek – 57.3 kms<br />
D661 Casa da Christine, Dushanbe – 65.6 kms<br />
D662 ao D672 descanso em Dushanbe<br />
D673 Familia Assis, perto de Tursunzade &#8211; 44 kms</p>
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